Aliança Norbertina

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Côn. Hermano José Pereira, O. Praem. 02/10/06

Vida religiosa e intercongregacionalidade

Deus é criador e criativo. Sempre está recriando. Como um pintor que nunca termina a sua obra, sempre acrescenta algo novo no grande painel da sua criação. Enquanto caía as primeiras chuvas primaveris sobre as montanhas das Minas Gerais, trazendo o prenúncio verde da esperança, a CRB Regional,inspirados pelo sopro criativo do Espírito de Deus, se reunia num clima de muita fraternidade. Com o Tema: Vida Religiosa Consagrada em Minas Gerais e Novo Acontecendo e, o Lema: O Novo Acontecendo nos trilhos do Jubileu; Provinciais e delegados das mais de duzentas congregações em Minas, buscavam juntos, traçarem novos caminhos para uma Vida Religiosa mais profética e solidária para os tempos de hoje. Em meio a um diálogo franco, aberto e com muito respeito às particularidades das diversas ordens e congregações, deixando de lado aquilo que separa e buscando o que é comum, pode se dizer que a conclusão que se está chegando é que a inspiração de todos os fundadores de Ordens e congregações e Institutos Religiosos, salvaguardando, é claro as nuances da espiritualidade própria de cada um, antes de tudo foram chamados a servir a Deus nos irmãos, sobretudo os pobres e oprimidos.

Essa Iluminação, vem gestando uma ação conjunta que começou com os encontros intercongregacionais ( postulinters, novinters, juninters etc) e, que agora quer avançar para missões intercongregacionais. Por isso é correto dizer que a palavra de ordem dessa Assembléia foi intercongregacionalidade. Intercongregacionalidade dizendo de maneira simples seria o Trabalho conjunto entre as diversas ordem e congregações, nos lugares mais sofridos do nosso país e do mundo, mostrando a face solidária e comunitária de Deus nas ações pastorais. Experiências como estas já estão sendo feitas e essa é uma proposta que a CRB Regional Minas tomou como Propósito. Isto seria uma espécie de ecumenismo entre as diversas ordens e congregações, visando dar um melhor testemunho do ser cristão na Igreja. Quatro pontos foram postos em discussão; depois de uma longa conversa nos grupos e com a sistematização do frei Eduardo Metz e a irmã Terezinha, ficou resumido assim:

1. Vida Religiosa, faísca de Deus.

O verdadeiro testemunho da V R é iluminar, ser faísca de Deus, mostrar no mundo a sua presença, ser o seu rosto materno e paterno, ser palavra viva. Despretensiosamente ser o sagrado no mundo.Conscientes de que Deus é a fonte da vida, como profetas e místicos cuidar da vida em todos os sentidos. Ser uma presença simbólica, unificadora e unificante, não importa se somos feios ou bonitos, importa sim, a gratuidade, a simplicidade, a misericórdia, a bondade e o acolhimento fraterno e sororal, somado a liberdade que proporciona a libertação integral da pessoa humana.
A vida religiosa hoje passa em primeiro lugar pelas relações e, não mais pelo tipo de atividades que desempenhamos. Para captar essa simplicidade de Deus é preciso amar, é preciso não ter medo de dizer que o amor é a cura de todos os males e é de graça. Só o amor á Deus e ao próximo pode verdadeiramente transformar as estruturas humanas e sociais. Devemos dar espaço para Deus criar em nós, è preciso esvaziar descer ao chão da nossa miséria humana para assumir o ser humano como fez Jesus. Não se pode redimir aquilo que não se assume.

2. vida consagrada, vida partilhada

O nosso Deus é um Deus que derrama abundantemente a vida no mundo. Estamos encharcados da vida divina. Como místicos e profetas precisamos ter a sensibilidade poética de nos encantar com essa vitalidade presente no mundo. Como agricultores de vida, é preciso que conservemos em nós uma certa indignação em relação a tudo que nega a vida. Como jardineiros que acompanham o ciclo da natureza pacientemente, devemos aceitar que a vida tem um ritmo. Somos na maioria das vezes muito funcionais, não respeitamos o passo que a vida nos impõe. A vida de um modo geral se manifesta naquilo que se pode ver, ouvir, sentir, degustar, cheirar. Aquilo que toca em primeiro lugar os nossos cinco sentidos e, nos leva a um sentido mais pleno rumo ao transcendente. Para nós seres humanos, ela se manifesta palpavelmente no corpo e, nosso corpo é limitado. Jesus queria que compreendêssemos isso quando se fez corpo na vida e na eucaristia. Portanto, na vida consagrada a profecia passa pela humanização da vida, devemos incondicionalmente proclamar a vida em tudo que fazemos. Em tudo devemos tocar a vida, por mais severina que ela seja, ela tem que ser resgatada, resguardada. A vida sabemos nós é frágil, comporta limites, é parte integrante dela a finitude. Porém, nela de modo privilegiado está a fecundidade. Por ser carente de sentido, a vida para nós cristãos, encontra seu verdadeiro significado na encarnação do verbo.

3. Intercongregacionalidade: Dom do Espírito Santo

Deus nos criou distintos. Cada um de nós é um a sós. Porém não fomos criados para a solidão e sim para a solidariedade. Precisamos uns dos outros. A inspiração do espírito que tiveram os nossos fundadores foi suscitada a partir da experiência de Deus nos pobres e sofredores. O nosso ideal comum é o seguimento de Jesus Cristo pobre. Então temos na pessoa de Jesus fundamento da VR . A pessoa de Jesus é multifacetária, a VR com os seus diferentes carismas, quer ser o rosto de cristo no mundo. Não podemos formar religiosos somente para crescer o nosso grupo, mas para o trabalho na igreja. Todo carisma é DOM dado para o serviço a igreja. A diversidade de carismas enriquece o corpo eclesial. A V R mais do que nunca precisa ser testemunho dessa unimultiplicidade de Deus. A intercongregacionalidade pode enriquecer o nosso carisma. Quando nos juntamos, percebemos mais claramente a diferença que nos une. É bonito perceber que temos o mesmo principio, mas não somos a mesma coisa. Podemos e devemos na medida do possível trabalhar juntos. Somos mais fortes quando andamos de mãos dadas. Urge que abramos o nosso coração e façamos a experiência da diversidade divina que nos impele á comunhão. É possível trabalhar juntos. Trabalhar juntos efetiva e afetivamente, ou seja: membros de diferentes ordem e congregações, trabalharem unidos no sentido de tornar mais visível a presença de Deus no mundo. Entendemos a intercongregacionalidade como Dom do Espírito Santo, que com o Pai e o filho, formam a Trindade. A trindade é a comunhão dos divinos três. Cada um na sua particularidade, desenhando para nós o rosto bondoso de Deus.

4. estruturas como espaço para o novo acontecer

Para que o novo possa nascer, faz se necessário modificar as estruturas. Mudar estruturas mentais e físicas. Isto é um exercício exigente, nos tira do nosso lugar cativo, do conhecido e aceito e, nos lança na insegurança de ter que ser inventivo. Aqui é preciso andar com cuidado, pois o terreno é acidentado e o caminho é pedregoso. A novidade tem que nascer primeiramente de dentro. Nascer do coração solidário de quem entendeu o verdadeiro espírito do evangelho. O novo sempre nasce de um parto dolorido. Por isso, Falar de estruturas é falar de caminhos. Estrutura como placas sinalizadoras que permita a vida fluir com leveza. A estrutura tem que ser o lugar onde todos possam se encontrar, lugar inclusivo. Compreender a estrutura como o conjunto de princípios que dar forma ao edifício que se quer construir. Entender estruturas como o agregado de relações mútuas. Estruturas como base de onde se pode lançar a nave dos nossos desejos na utopia de encontrar outros mundos possíveis.
Falar de estruturas é também tocar as relações de poder. É saber administrar o pouco que se tem. È falar de caridade e partilha, de responsabilidade conjunta. È abrir a nossa mente e coração para um modo mais simples de viver. Arriscar a viver na pobreza. Na abundancia não se pensa em mudar é a carência que faz nascer o novo. Somos seres de relação, de alteridade por isso chamados à comunhão. Por isso falar de estrutura é falar de inter-relação dialogal.

Conclusão

Mais uma vez, a V R, mostrando se aberta ao sopro do Espírito Santo, busca na originalidade da sua inspiração primeira, (o evangelho) a clareza necessária para elaborar as dores e angústias do tempo presente numa perspectiva de construir um futuro melhor. Mudaram os tempos, porém as estruturas ainda continuam as mesmas. Não se pode fazer nascer o novo se não se muda o jeito de pensar. Como faísca divina que ilumina e aponta uma vida mais partilhada, a V R de hoje cogita viver a intercongregacionalidade como forma de resplandecer no mundo o rosto de Deus. Portanto é impossível negar o surgimento e a configuração de uma nova V R que desafia a nossa criatividade solidária.

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