Aliança Norbertina

02/01/10

Uma nova visão - uma nova missão?

A comissão de espiritualidade de nossa Ordem propôs uma declaração que foi aprovada com uma grande maioria pelo capítulo geral de 2006. No seu texto, o abade geral fala sobre essa declaração de maneira pormenorizada. É um texto que pode ser usado para a formação dos juniores, para encontros comunitários e para o capítulo de casa. O texto é útil também para fazer conhecer a nossa espiritualidade aos bispos e aos religiosos de outras famílias.

"Uma nova Visão - uma nova Missão?" (Espiritualidade de nossa Ordem após o Capítulo Geral de 2006)

1 Objetivo de nossa vida canonical

Numa entrevista, foi-me pedido de expressar em poucas palavras o que é a essência da vida premonstratense. Não consegui expressá-lo instantaneamente numa só palavra. Há 40 anos, no capítulo de reforma em Wilten (Innsbruck, Áustria; 1968/70), foi encontrado o termo “comunhão” quase como única palavra-chave. Para nós, premonstratenses, é fundamental e importante viver em comunidade, viver no convento e trabalhar a partir da comunidade.

1.1 Comunhão

As Constituições descrevem a comunhão de quatro maneiras. Para mim, uma das passagens mais importantes de nossas Constituições, é aquela que trata da missão de construir em amor uma comunidade eclesial e humana: “O primeiro propósito apostólico de nossas comunidades consiste, antes de tudo, na promoção da unidade em Cristo, tanto interna como externa. Santo Agostinho ensina-nos que a comunhão de nossas comunidades deve extrapolar-se pela caridade, que se estende a todos os homens” (N° 68). Exatamente nessa passagem, não se trata só de comunidade ou de comunidade em si. Nessa “comunhão de amor” trata-se de mais, 3trata-se de viver esse amor interiormente, em nossa convivência, e para com Deus; depois, trata-se de deixar transbordar esse amor para o exterior, para o povo de nossos campos pastorais. A comunhão não é um objetivo exclusivo, senão “um objetivo a fim de”. Os agostinianos expressaram isso sob o título: “Comunhão e Missão”. Uma vez, eu preferi os termos “recolhimento e engajamento” : viver um com o outro, estar juntos em casa (hospedar-se, voltar, recolher-se) e comprometer-se no exterior com o povo (o que para nós significa geralmente um engajamento pastoral). De maneira mais radical, poder-se-ia dizer: a comunidade é a nossa primeira tarefa pastoral; e a partir dessa comunidade viva, a nossa preocupação e amor dizem respeito aos homens fora da comunidade. Isso nos caracteriza com relação ao clero diocesano, aos cônegos seculares e também aos monges: não abandonamos a tensão entre “dentro” e “fora”, a nossa entrega concerne aos dois. Podemos intuir isso na vida de Jesus: “Ele rezava na montanha e curava nas aldeias”. Jesus vivia a partir de sua relação íntima e exclusiva com o Pai, em união com o seu Pai, rezando freqüentemente durante toda a noite, mas de dia, dedicava-se incansavelmente ao povo, proclamando e curando como pregador itinerante, despertando e desafiando como profeta, ensinando e acompanhando como mestre.

1.2 Primum propter quod (a primeira finalidade)

Após a minha eleição como abade geral em 2003, procurei expressar a nossa identidade num tipo de programa de princípios básicos: comunidade exige comunicação, capacidade para dirigir e “generatividade”.
* Comunicação implica tudo o que dentro da comunidade acontece como interação, troca, correção e informação, diálogo e colaboração.
* Direção e condução, - que em nossa Ordem são sempre protegidas pelo controle e a co-responsabilidade da comunidade através do conselho e do capítulo canonical ,- significam a missão de guardar unida a comunidade, de animar continuamente para realizar o objetivo comum, de unir novamente as forças divergentes, ou seja, de reforçar as forças centrípetas.
* A “generatividade” poderia ser descrita como a capacidade das pessoas e da comunidade para se tornar fecundas, a capacidade para atrair e entusiasmar homens, a capacidade para encaminhá-los para a fé, a capacidade para incitá-los a viver da fé, a capacidade para guiá-los a descobrir a sua vocação pessoal e quiçá para optar pela vida religiosa ou sacerdotal.

Assim foram abordados 4 temas aos quais presto uma atenção especial. Ao mesmo tempo, eles são elementos constitutivos para a nossa vida religiosa: 1° a construção da comunidade (comunhão), 2° a coordenação dentro da comunidade e da Ordem (comunicação), 3° a direção legítima e o acompanhamento (leadership, auctoritas - liderança, autoridade), 4° a preocupação pela pastoral vocacional e a formação (formatio). Finalmente, tudo gravita em torno da vida comunitária, em torno da proteção das estruturas e capacidades, do aperfeiçoamento nos distintos serviços e da proteção do futuro por uma nova geração de jovens bem formados. É isso que o mesmo Agostinho formulou de maneira insuperável e exata, no começo da Regra:
“Vivei unânimes na casa (salmo 68.7), tendo ‘um só coração e uma só alma’(At. 4,32) em Deus, porque a concórdia é a primeira finalidade de vossa vida em comunidade”.
A vida religiosa é vida comunitária orientada, segundo Agostinho, para o seu objetivo duplo: a construção de uma forma de vida co-fraterna (comunhão) e uma tendência comum para Deus (contemplação). A isso, a vida religiosa canonical ajunta um terceiro objetivo (norbertino): a construção no exterior de uma comunidade eclesial com o povo, nas paróquias, nos postos de missão e nos outros projetos pastorais (actio). A nossa vida passa-se neste triângulo eqüilátero de “comunhão - contemplação - actio”; não podemos abandonar ou reduzir nenhum aspecto, sem correr o perigo de perder o nosso “proprium” (específico) ou de debilitar a nossa identidade.

2. Visão - Missão - Declaração

Finalmente deve referir-se a um novo e importante impulso, que lentamente tomou forma na comissão de espiritualidade de nossa Ordem , e que foi aprovado com uma grande maioria, pelo capítulo geral de 2006, em Freising. Trata-se do “Vision-Mission-Statement”, uma tentativa de descrever e condensar a natureza da nossa Ordem, numa forma breve, concisa e quase lírica. Poderia ser considerado como um modelo ideal , uma apresentação breve para gente que procura informar-se sobre nossa Ordem. Da mesma maneira que, no mundo da economia, se apresenta a natureza e o objetivo duma indústria ou empresa como uma “corporate identity”, assim essa declaração deve expressar o objetivo e a natureza da nossa Ordem. O texto proposto ao capítulo, era o resultado de trocas de idéias e de discussões durante anos, nas distintas canonias e circarias da Ordem. Na apresentação dessa declaração, durante o capítulo geral, houve uma discussão longa relativa às formulações concretas e ênfases. Ao final, a declaração foi votada e aprovada por uma maioria grande dos participantes. Portanto, o texto aprovado pode ser incluido em todas as publicações, os web-sites, os folhetos e o material publicitário nos quais a Ordem é descrita ou apresentada. O texto pode ser usado para uma discussão no capítulo da casa, ou para dias de recolhimento, ou como guia para pessoas interessadas em nossa vida, ou para encontros vocacionais (“come-and-see-weekends - fins de semana “vem e vê”). A partir de agora, pode-se e deve-se trabalhar com esse texto.

“Atraídos pela misericórdia de nosso Deus Unitrino,
nós somos chamados, como batizados que somos,
a seguir o Cristo pobre e ressuscitado,
em uma vida radical e apostólica,
segundo o Evangelho, a Regra de Santo Agostinho
e o carisma de São Norberto, fundador de nossa Ordem Premonstratense.

Nosso modo de vida é marcado por:
uma busca de Deus por toda a vida, em fraternal comunidade,
numa contínua conversão, pela doação de nós mesmos à igreja de nossa profissão,
em comunhão com Cristo que se aniquilou a si mesmo,
na imitação de Maria meditando a Palavra de Deus, e na oração assídua, e no serviço do altar.

A partir do coro e do altar,
somos enviados para servir à família humana
em espírito de simplicidade, hospitalidade, reconciliação e paz,
para o benefício da Igreja e do mundo,
especialmente onde Cristo é encontrado nos pobres, sofredores, ou naqueles que não O conhecem.

Pedimos que,
aquilo que o Espírito de Deus começou em nós,
seja levado à perfeição até o dia de Cristo Jesus.

Valeria a pena, falar uma vez de maneira pormenorizada sobre essa declaração. Tentemos esclarecer um pouco cada parágrafo.

2.1 Vocação

1_ Para cada vocação cristã, o batismo é o fundamento. Isso vale também para a nossa vocação premonstratense. A eleição e a adoção por Deus, como também a assunção na comunidade interna de Deus, sempre precedem toda a nossa busca, a nossa saudade e a nossa resposta. ”Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi” (João 15,16). Celebramos aquela adoção no batismo dum recém-nascido. É o amor de Deus que nos chama para a vida; é o amor de Deus que nos chama para a comunidade eclesial de fé; é o amor de Deus que nos chama finalmente para um seguimento mais radical na vida religiosa. A nossa vida é uma resposta, um eco, uma reação a uma iniciativa divina; por isso ela não é menos original ou autêntica, senão única e profundamente livre. A nossa vida como premonstratenses depende inteiramente da união íntima com Jesus Cristo, com “o Cristo pobre e ressuscitado”; isso vale para cada vida cristã e para cada vida religiosa, no mundo inteiro. Mas em nossas comunidades desejamos deixar perceber algo do espírito radical da Igreja primitiva, onde o povo constatava com surpresa: “Vede, como eles se amam!” Como premonstratenses, nós temos uma história e tradição próprias, nascidas com esse espírito da Igreja primitiva, como Agostinho o compreendeu e descreveu na sua Regra. Depois, temos a eleição, o carisma e a forma de vida do pregador itinerante radical e combativo Norberto; ele entusiasmava as pessoas e atraia seguidores para a realização concreta duma casa, num lugar bem determinado e num período específico. As nossas casas também foram formadas pela história e pela tradição, mas igualmente por levantamentos e renovações. Assim também nós mesmos somos formados e influenciados pessoalmente, pela “fidelidade criativa” de certos irmãos. Tudo isso em conjunto, constitui a nossa vocação humana, eclesial, religiosa, e finalmente premonstratense, que ainda é tingida pelo colorido que caracteriza cada canonia. A nossa vocação é primeiramente grito, chamado e acolhida pelo “misericordioso e unitrino Deus”; ajudados pela sua graça, nós queremos responder-lhe generosamente e corresponder pela nossa vida inteira de cristão e de religioso.

2.2 Visão

Ao ser chamados por Deus, e querendo responder pelo seguimento e pela entrada numa comunidade religiosa, trata-se em seguida de traduzir, numa forma de vida concreta, e de realizar como pessoa e como comunidade, a nossa visão de vida religiosa, o nosso conceito específico da vida canonical regular. A nossa vida fraterna caracteriza-se por 4 terrenos de exercício, formados dentro da tradição de nossa Ordem. São a procura de Deus durante toda a vida, a conversão contínua de vida, a observação da Palavra de Deus, segundo o exemplo perfeito de Maria, e a oração sem término, junto com o serviço do altar. Poderia dizer-se que são as 4 pedras de milhas para nossa vida contemplativa em comunidade.

2.2.1 A procura de Deus durante toda a vida parafraseia outra vez aquele processo dialogal, que começa no batismo, e que, segundo a nossa esperança, vai estender-se além da morte. Procuramos Aquele que nos chama com o nosso nome, que nos conhece e ama. O procuramos sem dispor dEle, Ele se oferece e se subtrai. Procuramos Aquele que está mais perto de nós do que nós mesmos, Aquele mesmo que é inacessível por sua transcendência, que excede a tudo. Lá se encontra a maior felicidade e o mais profundo mistério de nossa vida e vocação: uma realidade inesgotável que nunca acabamos de aprofundar. Deus é Aquele que é totalmente diferente, mesmo os céus não conseguem glorificá-lo de maneira adequada, mas ao mesmo tempo, Ele habita intimamente em nós. “É nEle, com efeito, que temos a vida, o movimento e o ser”(AA.17,28). Aqui tocamos o lado contemplativo-místico de nossa vida cristã, que Paulo, balbuciando, articulou assim: “Já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim”(Gal. 2,20). É procurar e encontrar, encontrar e novamente procurar, como diz Agostinho. Nunca é possuir e ter, é bem antes amadurecer e começar inteiramente de novo.

2.2.2 A conversão contínua já foi evocada por essa busca. Na fórmula de nossa profissão, essa tarefa quase tem o caráter dum quarto voto, a “conversio morum” . Esse processo de conversão também poderia ser colocado como título acima dos três votos. Por que esse processo contínuo de conversão e renovação deve realizar-se nesses três campos: o campo de um estilo de vida pobre e simples, o de prestar atenção individualmente e como comunidade, aos chamados de Deus, e também a forma de vida fraterna, que renuncia à intimidade, ao matrimônio e aos filhos (celibato consagrado, “castitas”). Nem aqui chegamos ao topo da escada ; muitas vezes devemos recomeçar na parte mais baixa e nos esforçarmos para cima. Nas Constituições, a descrição dessa “conversão de vida” baseia-se na disposição para perdoar o irmão do qual nos afastamos. O irmão é a pedra-de-toque, a comunidade é o campo da prática, a nossa relação com Deus é o porto de destino de todo esforço ascético, moral e contemplativo. A expressão mais forte dessa disposição para converter-se é a prostração na profissão, a entrega total a Deus (“trado meipsum”), a doação completa de si mesmo a Deus e a esta comunidade concreta (“offerens”) e a conversão permanente da minha vida pessoal e de nosso estilo de vida comunitário. Aqui dá-se uma expressão simbólico-litúrgica de nossa tentativa de aproximação ao Cristo “que se aniquilou a si mesmo” . Trata-se somente de seguir a Jesus, de adaptar-se humildemente para seguir seu rastro, seu projeto de vida, para asemelhar-se mais e mais ao Senhor pobre, obediente e casto.

2.2.3 Maria nos é apresentada como modelo para esse movimento de busca e de aproximação. Ela é sempre representada escutando, lendo e meditando, mas ela parece nos dizer:”Fazei tudo o que Ele vos disser”(João, 2,5). A sua vida gira tanto em torno da Palavra de Deus, que esta toma corpo nela: “E o verbo se fez carne” (João 1,14). Tomou corpo em Maria que, se abriu inteiramente ao chamado, ao amor, à graça, tornando-se assim a porta de entrada da realidade divina nesse mundo. Isso constitui o aspecto virginal e materno dessa mulher sem par. Será que nós podemos imitá-la? Devemos lembrar-nos da frase: “Se Cristo tivesse sido nascido mesmo mil vezes, sem nascer em ti, o mundo teria ficado miseravelmente perdido”. Maria é a mãe da fé e da Igreja. Ela é o modelo para cada nascimento de Deus em nós e de nós. Consolados, podemos deixar-nos guiar por ela. Como ela, devemos cogitar na Palavra de Deus e ponderá-la sem fim em nosso coração. Não tem outro caminho.

2.2.4 Isso é exatamente o aspecto contemplativo e meditativo no qual acontece e se intensifica a nossa oração. Não consiste numa grande quantidade de palavras, senão antes, em juntar a sua voz ao louvor sem fim entoado por Maria com o Magnificat. Aqui se encontra a raiz mais profunda de nosso ofício coral festivo: no grito alegre de Maria: “A minha alma anuncia a grandeza do Senhor” (Luc. 1,46), no júbilo do Senhor: “Eu te louvo , ó Pai, Senhor do céu e da terra” (Luc. 10,21), no agradecimento dos apóstolos, por que puderam sofrer injustiça por causa do Senhor. Desse canto elogioso e agradecido nasce também uma liturgia festiva, incumbida pelo Senhor: “Fazei isto em memória de mim”(Luc.22,19); esse culto litúrgico se estende até à liturgia cósmica e celeste da adoração e da glorificação sem fim do Senhor. O serviço do altar com muita limpeza, veneração e esplendor, constitui uma herança e missão de nosso Pai Norberto mesmo. Segundo São Bento, nada pode se preferir a esse “officium divinum”.

2.3 Missão

É necessário que esse encontro gere uma missão, para que essa visão não se torne puramente visionária. A divisa dos dominicanos é: “Contemplata aliis tradere”, “transmitir a outros o que foi ponderado na contemplação”. Com certeza, não existe nenhum encontro com o próprio divino, sem tornar-se uma missão. Todos os relatos bíblicos de experiências de Deus o indicam. Quem cai na fascinação de Deus, recebe uma missão, um mandato, uma ordem: “Vai, porém, a meus irmãos e dize-lhes: Subo a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus” (João 20,17b). Esta foi a missão de Maria Madalena, depois de se encontrar com o Ressuscitado. Ela, uma mulher, foi a primeira mensageira da Ressurreição. Essa continua sendo a missão fundamental para nós, batizados no Senhor crucificado e ressuscitado. Como premonstratenses, com nosso hábito branco, que lembra os anjos da ressurreição no Evangelho, somos especialmente comprometidos com essa missão.
A declaração nos apresenta quatro campos importantes para essa missão: o nosso serviço de reconciliação e de paz, o nosso serviço de construção da Igreja e da comunidade, o nosso serviço aos pobres e sofredores, e a nossa missão para aqueles que ainda ignoram a Deus. São quatro pedras de milhas para nosso trabalho pastoral, missionário e ativo.

2.3.1 O nosso serviço de reconciliação e paz, orienta-se por São Norberto, a quem os irmãos norte-americanos gostam de apostrofar como “minister of peace and concord”. As atividades dele se distinguiam pela capacidade de reconciliar os homens, de restabelecer a paz, de estimular novamente o diálogo entre adversários e de propor soluções aceitáveis. Ao seguir as pegadas de nosso fundador, encontramos atualmente um campo amplo de atividade, primeiro no próprio convento, onde se deve tratar de construir e de manter uma boa cultura de discussão e de reconciliação, depois nas paróquias, onde encontramos cada vez competições e interesses contrários nos grupos, e também nas escolas, onde aumenta o tumulto e a violência. Porém, o trabalho em prol da paz poderia formar uma parte essencial da pastoral paroquial, ajudando as pessoas a encontrar uma interioridade reconciliada, a viver em paz consigo mesmo, com o mundo, e em primeiro lugar com Deus, o Deus da paz e da reconciliação. Não deveriamos deixar o campo da “innerhealing” (cura interior) nas mãos dos terapeutas. Prosseguindo a mensagem dos anjos “e na terra paz aos homens que Ele ama”(Luc.2,14), nós poderiamos anunciar aos homens a paz verdadeira: “Eu vos deixo a paz, eu vos deixo a minha paz”.
Porém, o trabalho em prol da paz forma hoje uma parte importante de toda atividade política. O diálogo entre as religiões, o processo de integração de distintas culturas, a repressão da fome, da enfermidade e da exploração, formam só indicações desse empenho. Qual é aqui a contribuição de nós, cristãos e discípulos de Norberto?

2.3.2 A nossa missão de construir a Igreja e a comunidade nasce imediatamente da visão dum estilo de vida contemplativo. O que ambicionamos e vivemos, o que afeiçoamos com amor, deve transbordar aonde somos enviados, na comunidade e na Igreja. “Enviados como Ele” era uma artigo orientador, escrito pelo abade Petrus Broeckx de Postel, para o capítulo geral de 1982, em Oostmalle (Bélgica). Os premonstratenses são gente que constrói a igreja. Gosta-se de representar o beato Hugo, primeiro abade e abade geral de Premontre, com uma maquete de igreja. Nas paróquias e nos distintos campos da nossa atividade pastoral, nós temos de construir a Igreja como comunidade. “Nós devemos prestar serviço ao bem da Igreja e do mundo”. Essa formulação é muito ampla e oferece muito espaço para poder reagir e responder às exigências e sinais dos tempos. Nisso pode-se imaginar duas direções. A primeira dá-se, quando nós saimos realmente, para trabalhar onde mora o povo; faz séculos que isso foi realizado pela pastoral paroquial, na periferia das abadias. A segunda acontece quando nós convidamos os homens para nossas casas, para acolhê-los num ambiente hospitaleiro e modesto, hospedando-os e acompanhando-os por algum tempo. Além disso, por que somos cônegos, o nosso ofício coral e as nossas celebrações eucarísticas não são serviços religiosos privados: devem estar abertos para os fiéis. Nós rezamos e celebramos como Igreja, na Igreja e para a Igreja.

22.3.3 A questão da pobreza em nossa vida religiosa não receberá nunca uma resposta completa. O voto da pobreza continua sendo antes de tudo um aguilhão, uma exortação, uma exigência. São Norberto levou a coisa a sério e renunciou radicalmente a toda propriedade pessoal e familiar, para “seguir nu o Cristo nu”. Cem anos mais tarde, São Francisco ia radicalizar novamente esse desprendimento de todo bem. A pobreza e a penúria não são por si mesmas virtuosas. Porém, esse desprendimento da dependência material constitui um caminho, que pode nos levar para uma maior solidariedade com os pobres, para compartilhar mais, para nos tornar mais sensíveis à verdadeira pobreza no nosso ambiente. Além duma necessidade material que clama aos céus, existe uma pobreza espiritual, uma necessidade espiritual de homens espiritualmente esfomeados. A necessidade e o sofrimento são multiformes e às vezes exige demais das nossas possibilidades. Porém, exatamente em relação com esses problemas, o Senhor continua nos dizendo:”Dai-lhes vós mesmos de comer “(Mc.6,37), dai-lhes o que eles pedem e procuram: comida, formação, uma melhor atenção médica, um acompanhamento mais atento em todas as situações e circunstâncias de emergência, mas também uma vida mais pacífica, equilibrada e justa.

2.3.4 A última tarefa missionária, formulada pela declaração, prossegue novamente a obra da vida de São Norberto. Durante toda a sua vida, ele continuou sendo um pregador itinerante, caminhando incansavelmente para anunciar a sua mensagem aos homens, atravessando grande parte de Europa, já imediatamente depois da sua conversão, mais tarde como fundador, como arcebispo e como figura política do império. O seu olhar se estendia para o oriente; ele propôs-se começar a partir de Magdeburgo, uma ofensiva missionária, e criar uma nova provincia eclesial. Hoje, não é menos de atualidade nem menos necessária a tarefa de anunciar Cristo aos que ainda não o conhecem, e aos que já não o conhecem. Parece que a fé se está evaporando, que a transmissão da fé fracassa, que o conhecimento da fé se esgota. Que faria Norberto hoje? Sem dúvida, ele se evadiria das paredes imóveis do mosteiro, para encontrar os homens. Muitos se queixam de que a Igreja fica “sentada” com inúmeros congressos, encontros e conversações. Como seria a aparência de uma Igreja dinâmica e peregrina, que dá mais importância aos homens, do que a si mesma? Onde existe ainda o zelo missionário e a elevação pentecostal, para sair cheio do Espírito Santo, como fizeram os apóstolos, e encontrar depressa os homens, falando a língua deles? Hoje, essa missão poderia iniciar-se diante da nossa porta; mas ela deveria estender-se ao mundo inteiro.

2.4 “Dies venit” - “O dia chega”

O último parágrafo da declaração nos leva novamente à liturgia de nossa profissão, onde cantamos três vezes, com toda entrega e idealismo: “Confirma, ó Deus, quanto operaste em mim pela tua misericórdia”. Toda a nossa ânsia e empenho desemboca em oração e pedido de misericórdia e auxílio, para que Deus mesmo complete o que foi iniciado. É a oração comum pelo Espírito Santo, que realiza isso para o dia em que Cristo reaparecerá. O dinamismo e a perspectiva de nossa vida religiosa consiste nisto: vamos caminhando para Cristo, a quem nos entregamos; estamos esperando Aquele a quem nos consagramos; um dia subsistiremos graças Àquele que nos chamou para o seguimento dele. A Igreja inteira vive no tempo pós-pentecostal, numa situação de busca a toda força e ânsia, de crescimento e de maturação, um tempo no qual o Espírito Santo tem o papel ativo e inspirador. Ele vai renovar tudo, Ele vai dar ao mundo um rosto novo.Essa renovação quer deve ser pedida e implorada. O grupo dos apóstolos junto com Maria, persistiu rezando continuamente na sala da última ceia (At 1,12-14), antes de ser atingido pelo vigor e o fogo, pelo Espírito de Deus. Ele constitui um modelo permanente para a nossa vida comunitária, para a nossa oração comum e para a nossa atuação no meio dos homens.

3 Observação final

Será que essa “declaração da visão-missão” traz algo novo, algo desconhecido até hoje, uma nova “visão”, uma nova “missão”? A declaração respira plenamente a nossa espiritualidade premonstratense, guarda algo da radicalidade da Igreja primitiva, e respira sobre tudo o espírito de São Norberto, por que em seus esforços reformistas estava em jogo a atualização do espírito da Igreja primitiva. Como fundamento para a sua nova forma de vida de cônegos regulares, Norberto queria a volta para a origem da Igreja, a volta para o primeiro amor. Assim, por que considerava a Santo Agostinho como quem guardava e conhecia melhor os carismas da Igreja primitiva, Norberto adotou a Regra dele.

A atratividade e a novidade da declaração encontram-se, sem dúvida, na sua linguagem penetrante, na sua nitidez sucinta, na redução dos “quinque viae” a quatro elementos básicos da visão, no acento mais forte no aspecto missionário para os homens que (já) não conhecem a Cristo. Sem falta, tem dois elementos que chamam a atenção: a teologia do batismo no começo da declaração, que constitui o fundamento de toda a nossa vida na Ordem, e em segundo lugar, a orientação pentecostal-pneumática, que abrange necessariamente toda a nossa vida consagrada, desde o batismo e, oxalá, até o dia do Senhor. É significativo para mim, que essa declaração termina numa oração, pedindo plenitude em Cristo, pelo Espírito Santo. Por isso também, devo terminar aqui com uma oração.

Ó Deus de misericórdia, na tua sabedoria, chamaste o teu servidor Norberto, para caminhar na fé como pregador itinerante, como fundador da Ordem Premonstratense, como arcebispo de Magdeburgo, guardando a tua palavra de verdade nos lábios e no coração. Norberto convidou homens e mulheres, sacerdotes e leigos, para assumir a sua forma de vida, ao serviço do povo de Deus. Lembrando-nos de sua visão e missão, sopra o espírito do Cristo ressuscitado em nosso coração e em nossa alma. Renova-nos, para que, cheios de fé e de alegria, anunciemos a boa nova de reconciliação e paz. Pelo mesmo Cristo, nosso Senhor. Amém."

 
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