“Cristo disse: "Eu sou a Verdade", e quem O encontrava pelos caminhos da Palestina vislumbrava nele também "o mais belo dos homens" (Sl 45 [44], 3).
A singular coincidência entre a verdade e a beleza, que se realiza no Verbo que se fez homem, volta a propor-se com frequência nas representações da arte cristã suscitando, também na nossa época, o desejo de a poder encontrar novamente nas composições contemporâneas. Com efeito, neste nosso tempo, não raro o pensamento tende a afirmar que a verdade, como tal, seria alheia ao mundo da arte. Além disso, a beleza diria respeito exclusivamente ao sentimento, e representaria uma suave evasão das leis férreas que governam o mundo. Mas é mesmo assim?
Se forem bem consideradas, a natureza, as coisas e as pessoas são capazes de nos arrebatar pela sua beleza. Como deixar de ver, por exemplo, num crepúsculo de montanha, na imensidão do mar ou nos traços de um rosto algo que nos atrai e, ao mesmo tempo, que nos convida a aprofundar o conhecimento da realidade que nos rodeia? Esta verificação induziu o pensamento grego a afirmar que a filosofia nasce da admiração, jamais separada do fascínio da beleza. Também aquilo que deriva do mundo sensível possui a sua beleza íntima, que sensibiliza o espírito e o abre para a admiração. Pensemos no poder de atracção espiritual, exercido por um acto de justiça, por um gesto de perdão, pelo sacrifício em ordem a um grande ideal, vivido com alegria e generosidade.
No belo vislumbra-se o verdadeiro, que atrai através do fascínio inconfundível que emana dos grandes valores. Assim, sentimento e razão encontram-se radicalmente unidos por um apelo dirigido à pessoa humana no seu todo. A realidade, juntamente com a sua beleza, faz com que experimentemos o começo da realização e, como que, nos sussurra: "Não serás infeliz; o pedido do teu coração vai realizar-se; aliás, já está a realizar-se".
Às vezes a beleza pode seduzir e corromper, mas esta degeneração como no-lo recorda o Evangelho representa um fruto amargo de uma escolha não oportuna que brota no coração da pessoa, porque "o que vem de fora e entra numa pessoa não a torna impura" (Mc 7, 15). Neste caso, o olhar do homem fixa-se naquilo que aparece e, negando o apelo a ir mais além, apelo este que se encontra presente em cada coisa bela, nega o seu valor de sinal e deseja possuí-la, cancelando assim, no tempo, todo o vestígio da beleza.
Santo Agostinho refere-se a esta amarga experiência nas suas Confissões, quando reconhece: "Eu lançava-me sobre estas coisas formosas que criastes… Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós" (X, 27, 38). Porém, o Bispo de Hipona recordou que foi precisamente a beleza que o libertou desta angústia: "Mas Vós me chamastes, clamastes e rompestes a minha surdez. Brilhastes, resplandecestes e curastes a minha cegueira. Exalastes o vosso perfume: respirei-o e agora suspiro por Vós" (Ibidem).
O esplendor da beleza contemplada abre a alma para o mistério de Deus. Já o Livro da Sabedoria repreendia aqueles que, "através dos bens visíveis, não chegam a reconhecer Aquele que existe" (13, 1), dado que da administração da sua beleza deveriam reconhecer o seu Autor (cf. ibid., v. 3). Com efeito, "a grandeza e a beleza das criaturas fazem, por comparação, chegar ao conhecimento do seu Autor" (Ibid., v. 5). A beleza possui uma força pedagógica, quando introduz eficazmente no conhecimento da verdade. Em última análise, ela conduz para Cristo, que é a Verdade. Com efeito, quando o amor e a procura da beleza brotam de um olhar de fé, consegue penetrar-se mais profundamente nas coisas e entrar em contacto com Aquele que é a fonte de toda a beleza.
Nas suas melhores expressões, a arte cristã constitui uma maravilhosa confirmação desta intuição, apresentando-se como uma homenagem da beleza transfigurada, que se torna eterna com o olhar da fé.”
(mensagem do Santo Padre aos participantes de um encontro em Rímini - 19 de Agosto de 2002)
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