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Côn. Hermano José Pereira, O. Praem. 18/11/05

Um homem à margem do rio

Existem coisas no mundo que não se pode explicar, coisas que estão para além da nossa compreensão humana, coisas de outro mundo. Fiquei matutando essas idéias simplórias na cabeça, por que quando me dou de pensar, penso. Pensamento é que nem aqueles mosquitos teimosos que a gente espanta e eles voltam a sentar mesmo lugar só pra pirraçar. Fiquei pensando naquele bispo Dom Luiz Cappio, que cismou de ficar com fome, pra ver se o presidente mudava a idéia de mudar o Rio.

No começo, achei que era bestagem dele e, que ninguém ia se importar se ele queria morrer por causa do rio ou não, mas depois eu fui começando aqui de longe me entender com ele, entender assim de forma desentendida, pois é muito difícil entender as idéias que estão dentro da cabeça dos outros. Eu fiquei pensando: aquele homenzinho de Deus sabe de coisa que nos outros de cá não sabemos. Eu olhava para as fotografias dele ou as imagens que aparecia na televisão ou na internete e via que ele não era do tipo que gosta de aparecer. Ele tinha um propósito, ele queria alguma coisa, ele estava tendo um visagem de futuro que nós outros não podíamos ver. E eu de tanto ver noticias de um homem com fome na margem do Rio; ali calado, mudo morrendo à míngua, lembrei de um texto de Guimarães Rosa que chama “A terceira margem do rio”. Lembrei desse texto por causa do rio, do homem, da fome dos dilemas da vida que leva um homem sem saber exatamente por que razões se propor a morrer. A história do Rosa, fala de um (nosso pai) que mandou fazer uma canoinha de madeira boa, entrou nela e nunca mais saiu do rio, subia e descia o rio naquela canoa até desaparecer. Eu nunca entendi bem aquela história do João Rosa, ele é cheio de misticismo então, tratei de esquecer por que não convém pensar essas esquisitices alheias. Ele começa dizendo que o nosso pai era um homem ordeiro cumpridor dos seus deveres, não era mais alegre ou mais triste do que todos daquela redondeza.
O bispo é um homem ordeiro, cumpridor dos seus deveres, não queria só fazer pirraça não; doido ela não era, acho que o que deu nele foi um excesso de lucidez; de repente ele começou a fazer parte de um todo, ele se viu como o rio já agonizante de morte, percebeu que ainda queriam abrir lhe mais uma veia. O bispo compreendeu uma coisa que o Rosa já tinha percebido: que a terceira margem do rio é o homem. (entenda aqui ser humano) só o homem tem consciência, tem ciência do que pode vir a acontecer; o homem é essa coisa entre o que se ver e o que não se pode ver. O homem é o que ver as outras duas margens do rio. Então o bispo entrou como que numa “canoinha”, sozinho e ficou lá definhando de fome como o Rio a secar. Queria não a transposição, mas a revitalização queria viver nem que para isso tivesse que morrer... Como ele mesmo disse: “quando a razão se extingue a loucura é o caminho”.

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