Aliança Norbertina

Fr. Edney Soares Souza 18/11/10

Síntese da Monografia: René Descartes

Publicamos aqui a síntese da monografia do Fr. Edney do Priorado Nossa Senhora Aparecida e S. Norberto de Montes Claros, que apresentou sua defesa no dia 10/12/2010, sexta-feira, e foi aprovado com êxito. Nossas sincéras felicitações fraternas ao nosso confrade Edney.

O conceito de Deus nas Meditações Metafísicas

René Descartes (em latim, Cartesius, 1596 - 1650), filho de uma família nobre, nasceu em La Haye (Touraine). Recebeu sua formação fundamental no colégio jesuíta La Fleche (1604 - 1612), estudou direito em Poitiers (1612 – 1616) e participou como voluntário do início da Guerra dos 30 anos. No quartel de inverno em Neuburg, junto ao rio Danúbio (1619 / 1620), veio-lhe a “luz de uma descoberta maravilhosa”: a certeza originaria do Eu pensante, cogito ergo sum. Após longa viagem, retornou em 1625 a Paris, retirou-se porém em 1628 para os Países Baixos, onde viveu vinte anos como preceptor particular. Em 1649 aceitou o convite da rainha Cristina da Suécia, mudou-se para Estocolmo, onde veio a falecer após alguns meses. As obras mais importantes de Descartes originam-se do período de trabalho tranqüilo nos Países Baixos, entre elas, sobretudo: Discurso do Método (1637); Meditações da Primeira Filosofia (1641), aumentadas com as Objeções e Respostas; Princípios da Filosofia (1642).

O presente trabalho tem por finalidade apresentar o conceito de Deus. Para tal empreendimento, Descartes, para estar certo de admitir somente o que fosse claro e distinto, começa a pôr tudo em dúvida. É necessário começar tudo de novo, encontrar novo ponto de partida e demarcar novo itinerário para conduzir, com segurança, a certezas científicas universais. As múltiplas opiniões são caminhos vários e inseguros que não levam a qualquer meta definitiva e estável. É preciso, portanto, encontrar o caminho certo, ou seja, aquele que se impõe a todos os demais como único legítimo porque o único capaz de escapar ao labirinto das incertezas e das estéreis construções meramente verbais, para conduzir afinal à descoberta de verdades permanentes, irretorquíveis, fecundas. É preciso achar a via que leve à meta ambicionada: é necessário achar o método para a ciência.

Descartes percebe-se de que, para poder pensar que tudo é falso, é necessário que pense, e que ele, que o pensa, seja alguma coisa. Penso; logo, existo,é, pois, o primeiro princípio da metafísica. Sabendo que existe, Descartes examina o que ele é; ora, não apreende a sua existência senão enquanto pensa; logo, é um pensamento, que existe independentemente de toda a substância material e é, por conseqüência, distinto do corpo. Este é o primeiro principio, só é evidente porque é claro e distinto; donde se pode concluir que a clareza e a distinção das idéias são o critério pela qual se reconhece a verdade.

Uma vez deduzidos estes primeiros princípios, Descartes passa à existência de Deus. O ato do pensamento o qual apreende a sua existência é a dúvida, que é considerada por ele, uma imperfeição. Descartes o conhece como imperfeito. Mas não se pode ter como imperfeito se não se tem a idéia de perfeito: qual é a causa desta idéia? Deve haver na causa pelo menos tanta realidade como no efeito; a causa da idéia de perfeito só pode ser, pois, um ser perfeito e, por conseqüência, o próprio Deus, que existe. Acrescenta-se a isto que um ser que tem a idéia de perfeito e que, apesar de tudo, não é perfeito não pode a si mesmo ter dado a existência; sem o que teria a si mesmo dado todas as perfeições de que tinha a idéia; ora, os humanos são seres imperfeitos que possuem a idéia de perfeito; logo deve existir um autor e desta idéia, que é Deus.

Entendendo por Deus uma substância infinita, perfeita, eterna, imutável, onipotente, onisciente e onipresente pelo qual todas as coisas foram produzidas e criadas. Para o pensador moderno, quanto mais se considera essa idéia, mais se conclui que ela jamais pode ter sua origem no próprio espírito, já que uma substância infinita não pode ser produzida por uma substância finita. Assim, é necessário concluir que tal idéia representa a marca do operário em sua obra, não sendo necessário que essa marca seja diferente da própria obra. Toda a certeza das demonstrações geométricas assenta, com efeito, em concebê-las evidentemente; examinado a idéia de um ser perfeito, descobre-se que a existência está aí tão necessariamente compreendida como qualquer propriedade do triângulo na do triângulo; logo, Deus existe.

Descartes é considerado o “pai da filosofia moderna”, pois fundamenta o pensamento voltando-se para a subjetividade: o puro “eu penso”. Com isso, abre o dualismo moderno entre sujeito e objeto, espírito e matéria de uma forma ainda desconhecida da tradição, indo além do pensamento platônico - agostiniano. Em função de não conhecer nenhum conceito universal de ser, a realidade desmembra-se radicalmente em uma dualidade radical. O mundo material torna-se um acontecimento puramente mecânico, e nosso conhecimento do mundo um saber puramente radical, quantitativamente calculador e dominador.

A questão de Deus assume no pensamento de Descartes uma posição fundamental, pois toda a verdade e toda a certeza fundam-se na veracidade de Deus. Na medida em que Deus não é demonstrável a partir da experiência deste mundo, Descartes refugia-se na idéia inata de Deus. Acolhe assim uma antiga tradição do pensamento inato de Deus, porém entende-o como idéia clara e distinta, que precisamente enquanto tal não é demonstrável. A partir desta decorrem todas as suas demonstrações da existência de Deus, que sob este pressuposto permanecem questionáveis. Testemunham, no entanto, que todo o sistema de Descartes sustenta-se e cai com o conhecimento de Deus. Sem este nada é verdadeiramente cognoscível e explicável. Dessa maneira, também Descartes torna-se um testemunho de Deus nos primórdios do pensamento filosófico da Idade Moderna.

Descartes elabora as provas acerca da existência de Deus. A primeira parte do fato de se ter uma idéia de Deus, que engloba em si, enquanto substância infinita, toda realidade e toda perfeição. A idéia de substância provem dele, pois o experimenta a si mesmo como substância, mas a idéia de uma substância infinita não pode ser formulada por ele mesmo. Pois ultrapassa infinitamente sua própria realidade. A causa não pode ser menos perfeita que o efeito. A idéia de Deus como essência mais perfeita só pode ter sido causada por Deus em Descartes. A existência de Deus, portanto, está pressuposta como causa de sua idéia de Deus.

A isso se junta um pensamento que se pode, com Descartes, considerar outra prova da existência de Deus: ele afirma que é um ser finito, ou seja, limitado e imperfeito, que, no entanto possui a idéia do ser mais perfeito. A perfeição infinita, que ele pensa acerca da idéia de Deus, não está contida em si nem realmente nem como possibilidade. A idéia do ser infinito nele, que é um ser finito, pressupõe o próprio Deus, o ser infinito, como causa. Portanto, Deus existe necessariamente como o ser mais alto e perfeito. Na idéia clara e distinta de Deus está contida sua existência necessária. O enunciado de que Deus existe é para Descartes uma frase puramente analítica de evidência matemática. A existência de Deus, assim diz, está nele no mínimo com o mesmo grau de certeza no qual até então estiveram as verdades matemáticas.

Para Descartes, à perfeição de Deus pertence sua veracidade incondicional, que assegura a verdade de todo conhecimento. Tudo o que é apreendido em uma idéia clara e distinta remete de volta a uma idéia inata, e esta é uma posição ou afirmação divina nele. Todavia, se Deus existe – um Deus que não é o Deus da religião, mas um Deus fundamento da ciência, um “Deus dos filósofos e sábios” -, e existe como ser perfeitíssimo, então Ele é bom e veraz, conclui Descartes. Assim sendo, não pode permitir o erro sistemático do espírito humano. Ou seja: a bondade de Deus impede a sustentação da hipótese do gênio maligno e justifica o otimismo científico e a própria crença na razão. Substituindo o gênio maligno pelo bom Deus, Descartes pode agora afirmar, com toda a segurança, que a evidência é mesmo o critério da verdade: às idéias claras correspondem de fato realidades – elas não são armadilha de um gênio enganador e cruel. O Deus cartesiano é, assim, a garantia da objetividade do conhecimento científico; enquanto bom Deus torna-se a expressão do otimismo racionalista que pressupõe que o máximo de clareza subjetiva corresponde ao cerne da objetividade.

Sobre a comunidade

Álbum
17/02/12 Vestição do Noviço Eduardo
04/02/12 Profissão Simples de Erlândio Alves
26/07/11 Ordenação diaconal no Priorado de Montes Claros
24/07/11 Ministérios no Priorado de Montes Claros
25/06/11 Retiro do Priorado de Montes Claros
22/01/11 Renovação dos votos no Priorado de Montes Claros
17/01/11 Capítulo do Priorado de Montes Claros realizado no dia 31 de janeiro e 1º de fevereiro
13/01/11 Votos solenes no Priorado de Montes Claros
09/01/11 Visita Canônica no Priorado de Montes Claros
03/01/11 Dois postulantes receberam o hábito no Priorado de Montes Claros
17/10/10 Eucaristia da Festa dos Corações Norbertinos
10/07/10 Momentos do Capítulo e Retiro da Canonia de Montes Claros - MG
07/06/10 Celebrando São Norberto em Contagem - Belo Horizonte (MG)
31/05/10 Celebrando São Norberto no Priorado Nsa. Sra. Aparecida e S. Norberto - Montes Claros (MG)
28/03/10 Parabéns a você Pe. Andrés!
16/03/10 Semana Santa em Contagem (MG)
04/02/10 Fotos da Profissão Solene dos irmãos Militão e Flávio
19/07/09 Temperamentos franciscanos?
08/06/08 Ordenação Sacerdotal de Côn. Aguiar
07/05/08 Thalita Kum
08/04/08 Profissão solene do irmão Alessandro
17/02/08 Eleição do Prior de Regimine, em Montes Claros
13/02/08 Ordenação diaconal do Fr. Andrés González Muñoz (01.02.08)
15/09/07 Profissão solene do Fr. Andrés Muñoz González
23/12/06 Uma Singular Coincidência entre a Verdade e a Beleza
19/12/06 8 de dezembro 2006: dedicação da igreja do Priorado
05/12/06 Construção da igreja do Priorado de Montes Claros
17/09/06 Primeira Profissão no dia 28.08.06
17/09/06 Renovação da profissão no dia 28.08.06
 
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