RELATO SOBRE A CRIAÇÃO DA COMUNIDADE PREMONSTRATENSE NO RIO GRANDE DO NORTE
A nossa Ordem, desde o final do séc. XIX em São Paulo e Minas Gerais, desde 1994 na Bahia, expandiu-se neste ano para Rio Grande do Norte. Como aconteceu isso?
Uma aluna minha na Faculdade de Teologia de São Bento em Salvador, a cardiologista Dra. Helenita Yolanda Monte de Hollanda, sobrina neta do antigo Arcebispo de Natal, Dom Nivaldo Monte e amiga do nosso convento, ganhou como herança do seu pai, junto com os irmãos, uma fazenda nos arredores de Natal, perto do lugar do martírio dos Protomártires do Brasil em Uruaçu e dedicou uma parte do terreno para um futuro mosteiro da nossa Ordem. O atual Arcebispo de Natal, Dom Matias Patrício de Macêdo, que conhece bem a Dra. Helenita, precisou de padres para a futura paróquia de Santo Antônio do Potengi, em cujo território fica o lugar do martírio, e assim ele nos convidou para assumir a nova paróquia. O cabido do convento da Itinga, depois de alguns encontros votou unanimamente para assumirmos esta nova paróquia e o cabido de Geras deu parecer positivo. Assim, declaramos diante do Arcebispo a assumirmos esta paróquia e ganhamos a licença dele para ereção de casa religiosa com decreto de 16/10/2006.
Assim sendo, Pe. Filipe e eu decidimos a ir de 22/01 até 16/02/2007 de carro cheio os 1111 km de Salvador para o novo lugar de ação em Natal. Os dois outros confrades destinados para a nova fundação, os irmãos Vito Tajovsky e Moisés, potiguares, já foram no seu estado paterno, para tirar férias e visitar os seus pais. Eles nos esperaram em RN.
No domingo, 21/01, celebraram os três padres neomistas do último ano, José Maria, Thiago e Filipe com uma missa comunitária o primeiro aniversário da sua ordenação sacerdotal. Na segunda feira, nas laudes, pude vestir um noviço, que ganhou o nome de Josué (ficaram com ele oito noviços do primeiro ano). Depois fomos para Norte. Na noite fomos a Aracaju, onde os pais do Pe. Filipe moram. Lá, Filipe celebrou com muita gente uma missa na sua paróquia de origem, Na. Sra. De Loreto e eu pude pregar. O povo da paróquia veio a saber, que um filho seu foi chamado a assumir uma nova grande tarefa no Norte do Brasil. Dois dias, ficamos em Aracaju, Filipe para se despedir dos seus familiares e eu como hóspede numa paróquia perto da praia, na qual o nosso confrade Karol Wojtyla estava tirando suas férias. Nas missas, pude falar sobre nossa Ordem e o povo mostrou interesse diante de uma coisa nova.
Uma visita fizemos em Olinda, hoje subúrbio de Recife, no séc. XVI e XVII uma das cidades importantes portugueses no Brasil, cheia de igrejas e mosteiros barocos, antes de os holandeses erigiram o centro da sua colônia de Pernambuco em Recife, uma cidade com ilhas e canais mais semelhante às cidades de Holanda. Hoje diversas igrejas e mosteiros de Olinda já são roídos pelo dente do tempo, outros, maravilhosamente, recuperados. Visitamos o antigo seminário e o mosteiro dos franciscanos. Na quinta feira, partimos bem cedo e chegamos depois da nossa viagem através dos estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte pela noite em Natal.
De 24 - 31/01: Moramos no Seminário de São Pedro em Natal. Depois, chegaram os seminaristas de suas férias no seminário já superlotado e nós gozamos de 01 - 04/02 da hospitalidade de uma senhora gentil em Natal. De 04 - 10/02 ganhamos alojamento na Casa do Retiro das Irmãs do Amor Divino em Emaús, até pudemos entrar na nossa paróquia aos 11/02. Os dias em Natal foram para mim e o pequeno grupo da fundação (aos 06/02 chegou também o nosso diácono Rafael, assim fomos cinco confrades) preenchidos com reuniões, visitas, conferências e compras. Mas nós rezamos sempre juntos as horas do breviário em cada lugar, onde estivemos. Em Emaús fizemos também retiro antes do começo da Vida Comum em Natal. O Arcebispo celebrou pela primeira vez a Crisma na nossa futura paróquia aos 30/01. Foram 82 jovens de cinco comunidades da paróquia (a metade das comunidades). Neste dia a nova casa paroquial foi abençoada por Dom Matias.
Aos 11/02 a nova Quase-Paróquia de Santo Antônio do Potengi foi criada pelo arcebispo de Natal e Pe. Filipe foi instalado como primeiro pastor. No mesmo dia, instalou-se a vida regular da nossa pequena comunidade religiosa na casa paroquial, construída pelo povo da paróquia. A cerimônia foi celebrada na pequena Igreja de Santo Antônio, que tem um pátio, que nos domingos é tomado por um toldo para proteger os fiéis do sol. Já nas vésperas, aconteceu a primeira reunião da paróquia, na qual pude apresentar os nossos religiosos diante dos representantes da nova paróquia e falar sobre história e espiritualidade da Ordem Premonstratense. Também no dia da criação da paróquia pude fazer isso antes das alocuções do prefeito, do pároco da paróquia mãe e dos honorações. O povo Aparentemente nos aceitou. As vésperas do convento são cantadas diariamente às 18:30 e depois é missa conventual com participação do povo. Depois, Pe. Filipe sai para as comunidades rurais para celebrar missas e reuniões. Nos primeiros dias chegaram fieis para trazer leite e outros alimentos aos confrades.
A nova paróquia Santo Antônio do Potengi, contando aproximamente 30.000 habitantes, faz parte do município de Santo Amaro de Amarante com 100.000 habitantes. O centro de Sto. Antônio fica 13 km distante de Natal, capital do Rio Grande do Norte, é quase subúrbio da capital. Dez comunidades pertencem para a nova paróquia: Santo Antônio, Nova Santo Antônio, Coqueiros, Uruaçu, Pajussara, Guajiru, Maçaranduba, Serrinha de Cima, Serrinha do Meio e Olho dÀgua do Chapel. Fora disso são pastoreadas as comunidades Genipapo e Poço de Pedra. Para chegar na última comunidade, é preciso de uma hora de carro no tempo de seca. No tempo de chuva algumas passagens no interior são intransíveis por causa de falta das pontes sobre os rios. Na semana antes da posse, visitei com Pe. Filipe e o pároco de São Gonçalo todas as comunidades e falamos também com o povo.
O único acesso asfaltado dá para a comunidade de Uruaçu. Perto deste povoado fica o lugar do martírio dos protomártires do Brasil. Em 1645 no tempo da invasão holandesa, católicos portugueses de duas paróquias foram maltratados e mortos por índios sob o mercenário alemão Jacó Rabe, induzidos por holandeses calvinistas. No lugar do martírio fica um palco, em cujo fundo é pintado a história dos protomártires. No palco, que dá para uma grande praça, fica um altar. No lado, fica o monumento dos três mártires mais conhecidos, dos padres Ambrósio Ferro e André de Soveral como também do leigo, declarado padroeiro dos catequistas do Brasil, Mateus Moreira, que gritou, enquanto os índios tiraram seu coração pelas costas: “ Louvado seja o Santíssimo Sacramento” (os calvinistas não acreditavam na presença real de Cristo no sacramento).
Quando nós chegamos, os paroquianos já construíram a casa paroquial com sala, cozinha e dois quartos. Pe. Filipe construiu mais três quartos e uma capela. Se a comunidade cresce, vamos começar a construção do mosteiro no campo perto do lugar do martírio. Como secretaria da paróquia foi separada uma parte da sacristia. Ai Ir. Moisés está atendendo, enquanto Ir. Vito é responsável para casa e cozinha. Os irmãos fazem também celebrações e assumem tarefas pastorais.
Depois destas semanas de convivência com uma comunidade religiosa no começo, fui de volta com o diácono Rafael para Salvador. Pelos lagos da criação de camarões no Rio Grande do Norte, as plantações de cana em Alagoas, sobre as colinas cheias de coqueiros em Sergipe e pelos restos da mata atlântica na Bahia voltamos para Itinga, onde já um novo ano letivo na Faculdade São Bento e no Instituto Filosófico Beato Thiago Kern na casa, como um novo ano do postulantado (5 postulantes) e o maior noviciado, que jamais acompanhava (8 noviços) nos esperava.
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