
A “introdução” da prece de ordenação diaconal, além de ser maior, traz informações novas em comparação com as instruções concernentes às ordenações episcopal e presbiteral como forma de marcar a função e a diferença dos três ritos de ordenação: episcopal, presbiteral e diaconal. Mas a oração da prece de ordenação diaconal não traz novidade e parece uma junção das outras duas preces de ordenação:
* Deus, que tudo criaste e dispuseste pelo Verbo, (Jo 1,3)
Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, (2 Co 1,3; Rm 15,6)
a quem enviaste para servir segundo tua vontade (Jo 4,34 passim; Hb 10,7)
e manifestar teu desígnio, (1 Co 2,10; Ef 1,9; 3,5; 1 Pd 1,12)
** dá o Espírito de graça e de solicitude a teu servidor,
6 que escolheste para servir tua Igreja
e apresentar ²[em teu santuário o que te é oferecido
por aquele que estabeleceste como teu sumo sacerdote,
para glória de teu nome, (Ef 1,6; Fl 1,11)
10 a fim de que,
servindo sem repreensão e com uma vida pura,
obtenha um grau superior,
e que te louve e glorifique
por teu Filho Jesus Cristo Nosso Senhor,
15 por quem a ti a glória, o poder, o louvor, (Ap 4,11; 5,12)
com o Espírito Santo,
agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.]³
Se a prece de ordenação diaconal é menor do que as outras duas preces de ordenação, ainda é preciso observar que a partir da linha 7 o texto não está na tradução latina. Trata-se de um texto de origem tardia sobre cuja autenticidade se levanta suspeita.
Embora não se tenha a segunda parte da prece de ordenação diaconal nas versões latina e saídica e nas Constituições Apostólicas, pode-se obtê-la pela versão etiópica, pelos Cânones de Hipólito e pelo Testamento do Senhor. Por mais que tenha sofrido numerosas adaptações, a prece de ordenação diaconal segue a estruturação em duas secções: anamnética e epiclética.
A secção anamnética invoca a Deus que tudo criou e dispôs pelo Verbo e que enviou Jesus para servir e manifestar o desígnio de Deus. Na linha 1 há a palavra “Verbo” que não aparece nas outras duas preces de ordenação, é uma citação explícita do prólogo do evangelista João. As linhas 3 e 4 falam que Deus enviou seu Filho para duas coisas: primeiro, servir segundo vontade de Deus. E segundo, manifestar o desígnio de Deus, por isso, o Filho está em estreita união com o Pai.
Na secção anamnética não há referência a personagens bíblicos nem do Antigo nem do Novo Testamento, como se encontra nas outras duas preces de ordenação que lembram a função de Abraão e de Moisés com os anciãos e chefes do povo de Deus. A presença de Abraão e Moisés simboliza a presença de Deus no meio do povo escolhido.
As funções de bispo e de presbítero não são claras quanto à distinção, mas a função do diácono já não aparece bem definida na prece de ordenação. A prece de ordenação diaconal apenas fala (linha 6) de servir a Igreja e apresentar não tem complemento. Entretanto, na versão etiópica, o texto segue, dizendo que se trata de apresentar os dons (na eucaristia). E também não houve, no texto, uma especificidade no modo e no como “servir tua Igreja”. E, por um lado, não aparecem tão definidas as funções e o que se espera do eleito na prece de ordenação diaconal.
Na secção epiclética, o bispo pede ao Espírito, o espírito de graça e de cuidado ao que foi escolhido. E o bispo reza pedindo que o diácono sirva a Igreja e apresente. (linha 6 e 7). Aqui termina o texto da versão latina e o que se segue foi tomado da versão etiópica e dos Cânones de Hipólito e do Testamento do Senhor . No Testamento do Senhor aparece uma pequena menção do serviço de diácono de apresentar oferenda ao santuário por meio do sumo sacerdote. Aqui Bradshaw acredita que o termo “sumo sacerdote” usado também na prece de ordenação episcopal pode ser o mesmo e por isso nesta prece de ordenação diaconal pode se referir ao bispo e não a Cristo.
Em toda a prece de ordenação diaconal está presente o tema do serviço, a começar da afirmação: “escolheste para servir tua Igreja” (linha 6); na linha 7, embora o texto seja duvidoso, faz referência à assistência do diácono na oferenda eucarística feita pelo bispo . O serviço do diácono à Igreja deve ser sem repreensão e com uma vida pura (linha 11). Mas no próximo pedido aparece a expressão “obtenha um grau superior”. Esta expressão levou Bradshaw, Johnson e Phillips a discutirem se de fato ela se refere ao serviço do diácono: e por isso, através do serviço se alcança a um grau superior na dignidade. Ou, ainda, se os diáconos também poderiam ser escolhidos para a ordenação presbiteral ou episcopal.
Por algum motivo desconhecido na prece de ordenação diaconal não apareceu a expressão “na santa Igreja” como está represente na prece de ordenação episcopal e sacerdotal.
Das três preces de ordenação, a “introdução” da prece de ordenação diaconal é maior do que as outras duas introduções . Algumas hipóteses podem ser levantadas, embora não comprovadas, de que talvez houvesse certa confusão de funções com as do presbítero e por isso a insistência em marcar a diferença em relação ao presbítero.
Na versão saídica e nos Cânones de Hipólito e no Testamento do Senhor aparecem algumas funções singulares: cuida dos doentes, comunicando ao bispo para que este ore por eles ou lhes dê o de que precisam; cuide dos que não têm ninguém, dê a eles o de que precisam; dê o que necessita a pessoa que está na pobreza; os diáconos têm as esmolas do bispo e delas podem dar à viúva, ao órfão e ao pobre; ser conselheiro de todo o clero e ministro dos estrangeiros . Se, em algum momento da história do diaconato, ele serviu aos necessitados e foi uma função mais administrativa, da Idade Média à Contemporaneidade a sua diaconia se reduziu a apenas algumas funções sacramentais.
1.1 Quadro sinóptico das preces de ordenação diaconal
Para uma melhor compreensão da prece de ordenação diaconal far-se-á um estudo comparativo com outras três preces de ordenação das Constituições Apostólicas, dos Cânones de Hipólito e do Testamento do Senhor.
| “Tradição Apostólica” (TA) | Cânones de Hipólito (CH) | Constituições Apostólicas (CA) | Testamento do Senhor (TS) |
|---|---|---|---|
| Deus, que tudo criaste e dispuseste pelo Verbo,
Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem enviaste para servir segundo tua vontade e manifestar teu desígnio, dá o Espírito de graça e de solicitude a teu servidor, que escolheste para servir tua Igreja e apresentar [em teu santuário o que te é oferecido por aquele que estabeleceste como teu sumo sacerdote, para glória de teu nome, a fim de que, servindo sem repreensão e com uma vida pura, obtenha um grau superior, e que te louve e glorifique por teu Filho Jesus Cristo Nosso Senhor, por quem a ti a glória, o poder, o louvor, com o Espírito Santo, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.] | Ó Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, nós te suplicamos: derrama teu Espírito Santo sobre N.; inclui-no entre os que te servem de acordo com tudo que queres, como Estêvão e seus companheiros. Cumula-o com poder e sabedoria como Estêvão. Concede-lhe triunfar sobre todos os poderes do mal com o sinal de tua cruz, com o qual o assinalamos. Faze com que sua vida seja sem pecado diante de todos os homens e um exemplo para muitos, de forma que ele possa salvar uma multidão na santa Igreja, sem pejo. E aceita todo seu serviço. Por nosso Senhor Jesus Cristo, por quem a ti a glória, com ele e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém. | Deus onipotente, verdadeiro e veraz, rico para com todos os que te invocam em verdade, terrível em [teus] desígnios, sábio no propósito, poderoso e grande, ouve nossa oração, Senhor, escuta nossa súplica e manifesta tua face a este teu servidor proposto para a diaconia, e cumula-o do Espírito e da força, como cumulaste Estêvão, o primeiro mártir e imitador da paixão de teu Cristo. Torna-o digno de cumprir satisfatoriamente o serviço que lhe foi confiado, com firmeza, sem desvios, irrepreensivelmente, para ser julgado digno de um grau maior, pela mediação de teu Cristo, teu Filho unigênito, pelo qual a ti a glória, a honra e o temor reverencial, no Espírito Santo, pelos séculos. Amém. | Ó Deus, que tudo criaste e adornaste por tua Palavra,
que descansas nos puros sem mancha,
tu que, por teus profetas, nos subministraste vida sempiterna
e nos iluminaste com a luz da ciência;
Deus, que fazes grandes coisas, autor de toda glória,
Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo,
a quem enviaste para cumprir tua vontade,
de modo que todo gênero humano fosse liberto,
e nos revelaste e mostraste teu Pensamento,
tua Sabedoria, tua Visita, teu amado Filho Jesus Cristo,
o Senhor da luz, o Príncipe dos príncipes e Deus dos deuses, envia o Espírito de graça e de diligência sobre este teu servidor, para que lhe dê dedicação, serenidade, fortaleza, a virtude de te agradar. Concede-lhe, Senhor, que pratique a lei sem confusão, seja amável, ame os órfãos, ame os que cultivam a piedade, ame as viúvas, tenha espírito fervoroso, ame as coisas boas. Ilumina, Senhor, a quem amaste e escolheste para servir a tua Igreja e para oferecer em santidade ao teu santuário, o que te é oferecido pelo ofício de teu sumo sacerdócio, para que exercendo o ministério sem repreensão, com pureza, santidade e de espírito puro, torne-se, por tua vontade, digno desta ordem grande e excelsa e te louve sem cessar por teu Filho Unigênito, Jesus Cristo Nosso Senhor, por quem a ti a glória e a soberania nos séculos dos séculos. Amém. |
Se, por um lado, a prece de ordenação diaconal da “Tradição Apostólica” é bem sucinta, por outro lado, os textos dos Cânones de Hipólito, das Constituições Apostólicas e do Testamento do Senhor não o são. Eles trazem vários elementos sobre o serviço e a dignidade requerida do diácono. Nos textos há também a referência à Trindade. No texto das CA e no do TS vários adjetivos qualificam a Deus, tais como: onipotente, verdadeiro, veraz, rico para com todos, terrível em desígnios, sábio, poderoso, que tudo criou e adornou por sua Palavra, que descansa nos puros sem mancha, que faz grandes coisas, autor de toda glória e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Deus também por meio dos profetas subministra a vida sempiterna e ilumina o diácono com a luz da ciência. Ele, o Espírito Santo, por meio de Jesus Cristo, a quem enviou para cumprir vontade do Pai, para que todo gênero humano fosse liberto, para nos revelar e mostrar o Pensamento, a Sabedoria, a Visita e teu amado Filho Jesus Cristo, o Senhor da luz, o Príncipe dos príncipes e Deus dos deuses.
As Constituições Apostólicas são o único texto que apresenta a palavra diaconia, que em grego significa ministrar ou servir. Nos Cânones de Hipólito e no Testamento do Senhor aparece a menção a Estêvão, o primeiro mártir e imitador da paixão de Cristo, além de pedir o poder e a sabedoria como Estêvão em favor daquele que se prepara para o serviço do diaconato. A TA não faz menção a Estêvão. Na secção epiclética dos CH, das CA e do TS o serviço do diácono é apresentado como deve ser, mas em cada prece aparecem elementos diferentes: ele deve cumprir satisfatoriamente o serviço que lhe foi confiado, com firmeza, sem desvios, irrepreensivelmente; deve triunfar sobre todos os poderes do mal, ter uma vida sem pecado diante de todos os homens, e ser um exemplo para muitos para poder salvar uma multidão na santa Igreja sem acanhamento; deve praticar a lei sem confusão, ser amável, amar os órfãos, os que cultivam a piedade e as viúvas, ter espírito fervoroso e amar as coisas boas. Aqui se podem perceber as inúmeras qualidades que são pedidas para o diácono. E a prece de ordenação diaconal faz referência as quais pessoas o diácono deve cuidar: órfãos e viúvas. Por sua vez, a TA apenas diz que o serviço deve ser sem repreensão e com o coração puro.
A secção epiclética da TS fala da dignidade do diácono que iluminado pelo poder do Espírito Santo precisa oferecer oferendas em santidade ao santuário de Deus e exercer o ministério sem repreensão, com pureza, santidade e de espírito puro e louvar a Deus sem cessar.
Referências biográficas:
BRADSHAW, Paul F.; JOHNSON, Marxwell E.; PHILLIPS, L. Edward. The Apostolic Tradition: A Commentary, p. 55.
O final da prece não é conservado na tradução latina, o texto mais confiável. O teor do final (promoção a um grau superior) pede cautela quanto à autenticidade da versão etiópica e dos paralelos nas Constituições Apostólicas e no Testamento do Senhor (BRADSHAW, Paul F.; JOHNSON, Marxwell E.; PHILLIPS, L. Edward. The Apostolic Tradition: A Commentary, p. 63-66).
TABORDA, Francisco. Preces de Ordenação. Belo Horizonte: FAJE, 2003, (Apostila). p. 56.
Cf. BRADSHAW, Paul F. Ordination Rites of the Ancient Church of the East and West. Pueblo Publishing Company: New York, 1990, p. 73.
Cf. BRADSHAW, Paul F.; JOHNSON, Marxwell E.; PHILLIPS, L. Edward. The Apostolic Tradition: A Commentary, p. 65-66.
Cf. Ibid, p. 65-66.
A “introdução” é a instrução como se deve proceder a uma ordenação e que vem anterior a cada prece de ordenação. Cf. BRADSHAW, Paul F.; JOHNSON, Marxwell E.; PHILLIPS, L. Edward. The Apostolic Tradition: A Commentary, p. 64.
Ibid, p. 60-61.
TABORDA, Francisco. Preces de Ordenação, p. 56-60.
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