
No centro da liturgia eucarística, das mais solenes até as mais cotidianas, está a afirmação, sempre atual, de nossa profissão de fé: "Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus !" Repetida, muitas vezes, no simples hábito imposto pela rotina sacramental; falada, outras vezes, com vozes trêmulas e cansadas; ou pronunciada – não se pode negar essa conflituosa realidade – com extenuada falta de sentido, esta é a afirmação fontal da fé que se pretende cristã.
Mas não é embaraçoso ?: Que novidade representará, para um mundo aviltado pela sombra da morte, em todas as direções, e sobrecarregado pelo peso das guerras e da fome, anunciar uma outra morte, mais uma no meio das milhares acontecidas todos os dias, também ela uma morte violenta, resultado de maquinações mesquinhas do poder político-religioso e executada de modo cruel, num assassinato público, no humilhante patíbulo da cruz ?
Também não é menos embaraçoso proclamar – um gesto bem mais solene e audacioso que simplesmente anunciar – num mundo de alta precisão tecnológica, cuja ciência, pretensiosamente, dá razões a todos os eventos e fenômenos experimentados pela nossa humanidade, algo que se avizinha do contraditório e do insensato: aquele que, definitivamente, foi tocado pela morte, vítima de assassinato público, cujo corpo foi, presumidamente, macerado pela extenuante trajetória da condenação à crucifixão, foi trazido à vida ? Que sentido haveria proclamar o que, aparentemente, é tão completamente sem sentido ? E, ainda mais radicalmente, podemos perguntar o que, de verdadeiro e palpável, essa ressurreição proclamada trouxe ou traz para uma humanidade já, há muito, debilitada pela injustiça e opressão, pela fome e miséria e, não menos importante, pela falta de esperança e de sentido ?
E, por fim, ainda resta o pedido expresso de modo tão direto e simples: "Vinde, Senhor Jesus !" Talvez, nessa que é, muito provavelmente, a mais antiga prece feita pelo cristianismo, desde sua primavera, resta-nos, não sem uma corajosa capacidade crítica, perguntar quais são os desejos inarticulados, que estão velados por traz desta singela oração cristã. Não estamos a procura de um herói, capaz de apanhar-nos no precipício do sem-sentido e devolver-nos à segurança de um mundo perfeito ? Que outros desejos não pronunciados estão ditos neste antigo pedido da Igreja ?
Diante disso, não parece ser fácil a tarefa de construir uma Cristologia madura, capaz de, em primeiro lugar e mais importante que outra coisa, ajudar-nos a elaborar as verdadeiras e essenciais questões a serem feitas. Em segundo lugar, não menos difícil é percorrer, no diálogo incansável com as ciências e com o nosso mundo contemporâneo, os caminhos que podem nos oferecer, ainda que provisórias, algumas respostas que buscamos. A pretensão cristã não é pequena. Uma cristologia que articule, com a maturidade exigida pelo nosso tempo, será tarefa exigente.
’Quem é Jesus, para nós, hoje ?’ é, desse modo, a questão que orienta toda Cristologia, por isso, ela pode ser considerada como sendo a pergunta cristológica. Perguntar ’quem é Jesus ?’ é, na prática, admitir que toda Cristologia deve sempre voltar e se referir à vida do homem de Nazaré, não podendo se esquivar de um confronto, por vezes desconfortável, com uma humanidade concreta e situada em seu tempo. Por outro lado, perguntar ’quem é Jesus, para nós ?’ é transportar o evento do Cristo Jesus para o nosso hoje histórico, confrontando-o com nossa realidade e deixando nossa realidade confrontar-se com ele. Em outras palavras, a pergunta cristológica não é, pura e simplesmente, uma arqueologia do passado, nem tampouco um modismo, permeado de ideologias, do presente. Trata-se de uma pergunta referida a um passado fontal, questionadora de um presente incompleto e provocadora da esperança num futuro pleno para a humanidade. É isso que está dito no advérbio "hoje", contido na pergunta. Trata-se do óbvio, pois toda Cristologia deve fazer sentido, conservando aquilo que é permanente, para os homens e as mulheres de seu tempo.
A vida concreta de Jesus, o nazareno, a quem professamos ser o Ungido de Deus, aparece-nos em uma clara bipolaridade de relações. De um lado, o nazareno se coloca inteiro, numa relação nova e, de certo modo, inesperada no quadro das expectativas judaicas, com Aquele a quem ele denomina Abba, o Pai. É a partir dessa relação de fidelidade e de amor que Jesus percorre as sendas de seu itinerário humano. Essa relação afeta inteiramente a Jesus e determina, sem diminuir-lhe liberdade, desde dentro, toda sua vida. De outro lado, o nazareno faz-se portador, com gestos e palavras, da novidade que nasce desta relação fecunda com seu Abba: o Reino de Deus está próximo. As relações de Jesus com o seu Abba e com o compromisso de anunciar o Reino devem ser o contorno mais essencial de qualquer cristologia que se queira fiel às Escrituras e ao Espírito do Cristo .
Pela radicalidade de sua vida e pela riqueza de sua humanidade, nenhuma resposta será definitiva diante da pergunta sobre quem é Jesus. Neste sentido, a morte de Jesus deflagra uma crise inicial na expectativa dos discípulos. Tudo o que foi esperado e desejado, a partir do profeta de Nazaré, é colocado em suspenso, como suspenso foi o corpo do crucificado. A reação inicial é dar razão à morte, isto é, pela brutalidade dos fatos, tinha razão quem condenou Jesus à humilhação da cruz. No entanto, a Cristologia não está em posição confortável. Ela deve se perguntar: qual o sentido mais profundo desta morte ?
Pela vida de Jesus, pelas suas opções, pelas relações por ele estabelecidas, pelos seus posicionamentos críticos diante do sistema religioso da época, temos claro que há motivos políticos e religiosos para sua morte. A morte de Jesus não pode ser reduzida a um desejo, quase perverso, de um Deus sedento de sangue e desejoso de uma reparação digna de sua majestade. O próprio Jesus vai, aos poucos, dando um sentido lúcido à sua morte. E também as primeiras comunidades o fizeram, não buscando um sentido isolado na própria morte, mas inserindo-a no conjunto maior da vida-morte-ressurreição de Jesus.
A morte de Jesus é quando se expressa, da parte daquele que morre, a sua mais completa fidelidade ao projeto de Deus e de seu Reino. Pela sua morte, a vida de Jesus ganha uma intensidade especial, confirmando que é possível ser fiel sem ser violento, que é possível amar contra todo desamor. Na morte de Jesus, não há mais como ver triunfalismo no projeto de Deus para os seus. E, finalmente, pela morte de Jesus sabemos que o desejo de Deus em in-carnar-se não é uma fantasia, ou uma simples representação. Deus faz a experiência real da morte.
A morte de Jesus, desse modo, é a radicalização da pergunta cristológica. Embora não tenha valor em si mesma, a morte de Jesus toca, de perto, todas as nossas vidas e, porque não, também as nossas mortes. O Crucificado faz verdadeiramente a experiência da cruz e, por causa disso, torna-se irmão dos que se sentem crucificados pela história a fora. E, ainda mais privilegiados, nós já sabemos que a morte não teve a última palavra. Deus confirma a fidelidade de Jesus, ressuscitando-o dos mortos. O Crucificado é Glorificado. Deus garante a verdade do que Jesus viveu e pregou, e garante que há um sentido para a sua e nossa morte: a Glória. Se a morte de Jesus é a radicalização da pergunta cristológica, a sua ressurreição pode ser entendida como resposta radical a essa mesma pergunta, a saber: Quem é Jesus ?
A teologia é sempre discípula daquilo que podemos chamar de experiência fundante com aquele mistério que nos deixa inquieto e que, nos corações mais sensíveis, desperta um incansável desejo de articular em palavras o que se experimenta na alma. Portanto, a Cristologia, como disciplina teológica, é também discípula da experiência feita com o inesgotável mistério do avizinhar-se de Deus conosco. A Cristologia está no entretempo, claro-escuro, entre o Mistério mesmo Daquele que é insondável e a nossa experiência deste mistério. O caminho inquietante, que se revela na Cristologia, deve, ao menos, não nos afastar do mistério e, ainda se for capaz, ajudar-nos a professar, humildemente e mais adultamente, nossa fé.
Dr.Flávio Luís
Notas e comentários:
Eis o diálogo mais completo, até a solene profissão de Pedro (Mt15, 13-16): "Tendo chegado à região de Cesaréia de Filipe, Jesus interrogava seus discípulos: No dizer dos homens, quem é o Filho do Homem ? Eles disseram: ‘Para uns João, o Batista; para outros Elias; para outros, ainda, Jeremias ou algum dos profetas’. Ele lhes disse: ‘E vós, quem dizeis que eu sou ?’ Tomando a palavra, Simão Pedro respondeu: ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo’". Entre os exegetas, há relativo consenso de que essa solene profissão de fé proclamada por Pedro tem origens históricas seguras, embora no texto do evangelista, ela apareça de modo mais elaborado, dentro de um quadro contextual muito bem construído. É nessa profissão de fé que começa o trabalho da Cristologia, qual seja, na procura, permanente e sempre mais profunda, de encontrar palavras mais adequadas para expressar isso que humanamente é inarticulado: que homem é este, de quem foi dito e confirmado que é o Filho ungido de Deus ? Mas neste mesmo texto, estão colocadas as primeiras – talvez as principais – regras com as quais a Cristologia se aproxima deste mistério. A primeira destas regras é que a novidade representada por Jesus (que, evidentemente, tem suas raízes na fé judaica, na aliança de Deus com o Povo de Israel) não se esgota com modelos interpretativos do passado. Jesus não é João, nem Elias, nem Jeremias e nem algum dos outros profetas, muito embora possa deles ter recebido grande influência. A Cristologia, para ser fiel às suas origens, deve sempre se perguntar por Jesus e acolher a resposta vinda da vida de Jesus, de suas palavras, de seus gestos e, principalmente, de sua fidelidade na morte de Cruz. Do contrário, a Cristologia facilmente pode se tornar uma outra ideologia, entre tantas já presentes em nosso contexto. A segunda regra fundamental para a Cristologia, vinda deste simples texto de Mateus, é a descoberta da comunidade dos discípulos de Jesus como comunidade interpretativa da vida, morte e ressurreição de Jesus. A própria pergunta de Jesus sempre deve ser ouvida no tempo presente, isto é, dentro de um determinado contexto em que a resposta deva se pronunciar. A resposta de Pedro não é unicamente dele, como resposta solitária, mas é resposta da comunidade. A Cristologia, de novo, deve manter-se atenta às respostas que, ao longo do tempo histórico, a comunidade foi dando para essa pergunta fundamental sobre quem é Jesus. Naturalmente que o conteúdo central da resposta sempre será a profissão de fé em Jesus como Filho Ungido de Deus. No entanto, é tarefa da Cristologia, em cada tempo, tornar claro para a comunidade o que ela mesma quer dizer quando professa fé em Jesus, o Cristo de Deus.
Não é sem sentido, aqui, apresentar esta que é a crítica mais radical que o judaísmo faz ao cristianismo. Para os judeus (apenas para ilustrar, lembramos aqui do brilhante filósofo judeu E. Levinas), é difícil, para não dizer impossível, admitir a vinda do Messias – como nós cristãos acreditamos ter acontecido em Jesus – ao mesmo tempo em que não se percebe as mudanças messiânicas prometidas pela fé no Messias de Deus. O judeu, pela sua fé, espera, com a vinda do Messias, o estabelecimento definitivo do Reino de Paz, da chamada paz messiânica. Mas, criticam os judeus, que paz é essa que o Messias Jesus trouxe e que frutos colhemos dessa paz ? O “não” judaico ao Messias Jesus deve ser acolhido pelos cristãos como alerta crítico. O “não” judaico é útil para que nossa prática cristã não se acomode em espiritualismos ingênuos e estéreis, mas promova, de fato e concretamente, o reino messiânico.
Aqui temos que ser corajosos. Precisamos admitir que, por vezes, alimentamos uma expectativa heróica diante da figura do Cristo. Conscientes ou inconscientes, vamos desenhando uma figura de Messias que corresponda aos arquétipos mais primitivos de nossos desejos. Fazemos uma perversa inversão: no lugar de ir ao Jesus, através da Sagrada Escritura e da Tradição e, então, compreender quem foi Jesus e como o compreenderam seus primeiros discípulos, nós levamos a Jesus elementos inconsistentes de nossos desejos e pretendemos ver Jesus realizar cada um destes elementos. No diálogo com a psicologia contemporânea, é sabido que este é um mecanismo praticamente inconsciente, contra o qual devemos nos posicionar, não com vergonha ou escrúpulos, mas com um sempre maior desejo de maturidade de nossa fé. Uma fé adulta não precisa de heróis mitológicos, capazes de tudo. Uma fé adulta deseja o encontro transformador que coloque a vida a caminho da realização plena, na confiança em Deus, mas no trabalho árduo de conquista diária da plenitude.
A cristologia deve estar consciente, se quiser dialogar com o mundo atual, que a fé cristã não é mero enunciado teórico, uma construção bela de silogismos teológicos cujo resultado matematicamente esperado é o esboço de quem seja o Cristo. A fé cristã não é uma mera doutrina, mas principalmente uma prática, um posicionamento parcial (nunca neutro ou indiferente) diante da vida. Não se pode reduzir a fé cristã em pura e simplesmente ortodoxia, que é necessária, mas não é suficiente diante das exigências cristãs. A cristologia deve desembocar no que os teólogos latino-americanos denominam de ortopraxia.