Quem visita a igreja de Santa Maria Maior em Roma, caminha lentamente para frente, até os grandes mosaicos no arco do triunfo, até o grande altar com o tabernáculo. Uma pequena balaustrada impede de aproximar-se bem de perto. Mas alguns degraus conduzem da balaustrada a uma cripta. Nela, o visitador descobre um pequeno altar no qual se encontra um relicário semelhante a um berço. Nele se conservam restos e fragmentos do presépio de Cristo. No centro de Roma, o visitador está na presença do presépio. De repente, o Natal se torna presente e quase palpável. Não se sabe bem como esses fragmentos do presépio chegaram aqui. Talvez seja uma piedosa lenda, ou uma tentativa, nessa grande igreja romana dedicada à Mãe de Deus, para dar acesso ao mistério da maternidade divina. O que podemos acolher somente pela fé, se torna visível e meditável pelos restos do presépio.
Maria, uma jovem judia piedosa de Nazaré, é confrontada com uma realidade inconcebível. “Ela tinha casamento contratado com um homem chamado José, descendente do rei Davi. Ela se chamava Maria.” (Lc 1,27). Assim começa a história no evangelho de Lucas. Um anjo veio, dirigiu cumprimentos a ela, e lhe revelou que ia dar à luz a um filho. Maria consentiu e ficou grávida. As obras de arte sempre representam esta concepção com o Espírito Santo que desce como uma pomba sobre Maria. O inaudito e o indescritível combina-se com uma imagem encontrada na história da criação. No começo da Bíblia se lê: “E o Espírito de Deus pairava sobre as águas.” (Gên. 1,2): o começo da criação; em seguida se conta como Deus cria em seis dias o mundo, a luz, a vida, os animais e os homens. O Espírito de Deus pairava sobre Maria: assim se conta o começo, em Maria, da vida nova. Nove meses mais tarde, uns pastores velavam acampando perto da cidade de Belém. De repente, a noite se aclarou e um anjo lhes disse: “Hoje mesmo, na cidade de Davi, nasceu o Salvador, o Messias, o Senhor. Esta será a prova: vocês encontrarão uma criancinha enrolada em panos e deitada numa manjedoura”(Lc. 2, 8-12). Após a aparição, escurecendo novamente, os pastores conversaram seriamente e se puseram apressadamente a caminho; “e encontraram Maria e José, e o menino deitado na manjedoura”(Lc 2, 16).

A tradição fala da manjedoura construida com algumas simples tábuas na qual se depositava a forragem para o gado; fala também da chegada, num estábulo com um boi e um burro. O Santo, o Filho de Deus, como uma pequena criança chorosa, num ambiente frio, em panos, depositado numa manjedoura. A situação quase evoca uma “Babyklappe” na qual bebês são abandonados. Deus se entrega a nós como uma criança desamparada. Essa miserabilidade, evocada às vezes nas pinturas pela nudez, acentua que Deus queria realmente tornar-se homem e compartilhar simplesmente a nossa condição humana. A sua entrada na humanidade foi modesta. “Humildou-se…era igual a Deus, mas não tentou ficar assim…tornou-se um servo, igual aos seres humanos. Viveu a vida comum de um ser humano”(Fil. 2,6-8). Assim é a descrição do hino em Filipenses. Natal é Deus que se torma homem. Deus no nível humano: Ele começa como criança, se desenvolve, empreende a sua obra pública, e morre miseravelmente na cruz. Nas obras de arte, as peças de madeira da manjedoura, com frequência, já evocam as vigas da cruz.
Natal é a história de um nascimento, de uma coisa inteiramente normal no mundo: nasce uma vida nova, um homem entra na vida. Natal é a história de uma encarnação, da encarnação de Deus; é o maior mistério do mundo: Deus se torna um de nós, para que Ele nasça em nós. As duas peças de madeira na basílica de Santa Maria Maior são mais eloqüentes do que todo o ouro e a prata ao redor delas.
Natal faz também voltar à memória que, em 1121 - há 888 anos -, São Norberto fez profissão religiosa em Prémontré, junto com os seus companheiros; ele fez isso quase diante do presépio, onde a eternidade entrou em contato com o nosso tempo, onde o divino tocou o mundo.
Neste ano celebramos em nossa Ordem, o 875° aniversário da morte de nosso Fundador São Norberto. Foi uma alegria poder encontrar novamente, em longas reflexões, a espiritualidade e o carisma de nosso Fundador. Agradeço cordialmente a todos os irmãos e as irmãs pelas numerosas iniciativas e celebrações como as de Xanten e Magdeburgo.
Durante o ano próximo vai ter lugar um colóquio em Wilten/Innsbruck (07 – 10/02/2010), no qual se recordará os dos capítulos de renovação, de 1968 e 1970. Após 40 anos, essa renovação nos convida à reflexão, e desperta talvez o ânimo para um novo desenvolvimento com respeito à reedição das Constituições. Durante o ano próximo, os juniores da Ordem serão convidados a participar, em Tongerlo, do encontro dos jovens premonstratenses (23-30/07/2010). Isso pode consolidar a unidade entre eles e incitá-los a humanizar-se verdadeiramente.
Através destas linhas, envio saudações cordiais para todas as casas, e desejo a todos os irmãos e as irmãs uma feliz e abençoada festa de Natal. O Espírito Divino que desceu sobre Maria para iniciar nela uma nova criação, fecunde nossa Ordem. Entramos na preparação do Capítulo Geral de 2012 que terá como lema “DAY OF PENTECOST”. Que o Espírito Santo proporcione desenvolvimento à nossa Ordem, que Ele nos incite a renovar a nossa profissão diante do presépio, como cônegos e filhos de São Norberto, que ele nos incite a procurar juntos os traços da presença divina em nosso mundo.
Uma saudação particular para os recém-admitidos, para nossos juniores, para os novos professos solenes, para os recém-ordenados, especialmente para os nossos irmãos e irmãs enfermos e sofridos. Como os pastores, vamos partir apressadamente para encontrar a Criança na manjedoura e, para adorar o Filho de Deus que se tornou um ser humano; depois voltaremos alegres para nossas comunidades e nossos campos pastorais.
Roma, Natal 2009
+ Thomas Handrätinger - abade geral