
Montes Claros, 21 de abril de 2011
Queridos irmãos,
Iniciando nesta noite, com a Celebração do Lava-pés e da Instituição da Eucaristia, o Tríduo Pascal, sintamo-nos todos interpelados pelo Senhor a estar-lhe muito próximos: “Ficai aqui comigo e vigiai… Não fostes capazes de vigiar uma hora comigo? Vigiai e orai para não cairdes em tentação.” (cf Mt 26, 38c. 40c).
Estar com o Senhor e seguir seus passos é a vocação apostólica e, portanto, também a nossa vocação: “Escolheu doze entre eles para ficarem em sua companhia e para envia-los a pregar” (Mc 3, 14).
A maravilhosa Liturgia do Tríduo Pascal que estamos por celebrar e vivenciar é, pois, de maneira especial a nós, seguidores de Norberto, na busca de atualização da Vida Apostólica, um forte apelo, e mesmo um imperativo, de viver intensamente com o Senhor o Mistério da Páscoa, para que, acreditável e eficazmente possamos ser testemunhas da ressurreição, atualizando sempre melhor entre nós a vida da comunidade apostólica: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava propriedade sua, o que possuía. Tudo entre eles era comum. Com grande eficácia os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus e todos os fiéis gozavam de grande estima. Não havia necessitados entre eles.” (At 4, 32-34a).
Ao concluir o tão falante gesto do lava-pés, antecipando sacramentalmente, na última Ceia, a Sua Páscoa, o Senhor interpela aos discípulos: “Sabeis o que vos fiz? Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, porque o sou. Se pois eu, o Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo para que façais o mesmo que eu vos fiz. Na verdade eu vos digo que o servo não é maior do que o seu senhor, nem o mensageiro maior do que aquele que o enviou. Se compreenderdes isto e o praticardes, sereis felizes.” (Jo 13, 12c-17).
Portanto, para todo o cristão, e de maneira especial a nós (cônegos regulares Premonstratenses), que nos propomos, com e como Norberto, a viver a vida dos apóstolos, “porque, para nós, estes mandamentos foram dados de modo todo especial” (Cf. R.S.A, 1), ser hoje testemunhas da Ressurreição do Senhor, exige de nós sempre de novo e mais intensamente, morrer com Ele para a vida velha individualista, consumista e competitiva, pela “conversão dos costumes” para a vida de comunhão “em um só coração e uma só alma em direção a Deus” (Regra de Sto. Agostinho, 2), despindo a velha natureza e revestindo-nos da nova, segundo a imagem de quem a criou (cf Col 3, 9-10), “revestindo-nos de sentimentos de carinhosa compaixão, bondade, humildade, mansidão, paciência, suportando-nos uns aos outros e perdoando-nos mutuamente… e revestindo-nos do amor, que é o vínculo da perfeição, para que a paz reine em nossos corações, pois nela fomos chamados a formar um só corpo” (cf Col 3, 12-15), e assim podermos ser como Norberto, Apóstolos da Paz.
Assim nossa Liturgia, nossa Eucaristia e nosso louvor a Deus serão acreditáveis, eficazes, frutuosos, e poderemos “cantar a Deus de todo o coração Salmos, hinos e Cânticos espirituais, e tudo quanto (fizermos) por palavras ou obras” (Col 3, 16-17), o possamos fazer em nome (na Pessoa) do Senhor Jesus, dando por meio dele Graças a Deus Pai, celebrando e vivenciando coerentemente nossa Ação de Graças Eucarística e nosso Canto Coral, como nos convida o Apóstolo Paulo: “Portanto, irmãos, eu vos exorto, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais os vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus. Este é o vosso culto espiritual… Seja sincera vossa caridade… sede cordiais no amor fraterno entre vós. Rivalizai na mútua estima… Esmerai-vos na prática da hospitalidade… alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram. Vivei em boa harmonia uns com os outros… afeiçoai-vos às coisas modestas… vivei em paz com todos” (Rm 12, 1. 9a. 10. 13b. 15-16a. c. 18b.).
Em nossas Constituições, lemos: “Por sua ressurreição, Cristo transfigurou a sorte do gênero humano. ‘Primogênito entre muitos irmãos’… pelo dom do Seu Espírito, Ele instituiu entre todos aqueles que O recebem pela fé e pelo amor, nova comunidade fraternal, em Seu Corpo que é a Igreja. Nele, todos, membros uns dos outros, segundo a diversidade de dons que lhe são concedidos, devem ajudar-se mutuamente.” (Conf. Const. 7)… “esta opção do Cristo deve ser… a opção de cada um de nós… ‘Quem dentre vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de muitos’.” (Cf idem 8)… Participando do mistério da morte e da ressurreição de Cristo pela fé e pelo sacramento da fé (batismo), é preciso que tenhamos em nós, os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus (Fl.2,3).
Esvaziando-nos e ultrapassando-nos a nós mesmos, rompamos com nosso egoísmo, e vivamos para Deus e para os irmãos. Somente assim chegaremos à verdadeira união ardentemente desejada por nossos corações, e pela qual Cristo pediu orando: ‘Para que todos sejam um, assim como Tu, Pai, estás em mim e Eu em Ti. E para que eles também estejam em nós, a fim de que o mundo creia que Tu me enviaste’. (Jo 17,21)… Comunhão que significa uma ligação mútua entre as pessoas, uma reciprocidade de serviço: comunhão é a nossa união interna, manifestada exteriormente… na estima mútua, na confiança, na sinceridade, na fé, na responsabilidade mútua: em uma palavra, numa humanidade serviçal, que a caridade constrói… (expressa) por toda sorte de dedicação, de conselhos, de edificação e de respeito, assim como de diálogo, de informações, de consultas, de colaboração e de vida verdadeiramente comum… Esta comunhão que é com Deus em direção aos irmãos, e com os irmãos em direção a Deus, nos é dada, e ao mesmo tempo, no lugar em que nos encontramos, deve ser vivida por nós. Por isso, exige-se de nós a prática constante da palavra do Senhor: ‘Quem perder a sua vida por causa de mim, encontra-la-á’ (Mt 10,39).” (Cf. Const. 9-10.12.15)
Queridos irmãos, “O Cristo, nossa Páscoa foi imolado. Celebremos, pois, a festa, não com o fermento velho da malícia e da perversidade, mas com os pães ázimos da pureza e da verdade” (I Cor 5, 7-8)! Sejamos eficazes testemunhas da Ressurreição do Senhor, pela vivência de nossa vocação e missão: nossa vida de comunhão com Ele e entre nós, alicerçada, alimentada, testemunhada e aprimorada por nossa liturgia canonical! Uma feliz e Santa Páscoa para todos nós!
Côn. Toninho Galvão,
Prior de Regimine
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