Aliança Norbertina

09/09/10

Maria e o Espírito Santo: Mariologia Pneumatológica!

De início o título poderia talvez nos condicionar a refletir sobre Maria apenas em relação ao Espírito Santo, entretanto, com um olhar e percepção mais penetrantes logo nos vem à tona a interação desta mulher na vida e relação trinitária, visto que Espírito e Santo dizem respeito a cada uma das Pessoas Divinas em sua perichorese [1].

Voltando o nosso olhar sobre o evangelho de Lucas (mas não apenas sobre ele) que é o mais sensível à operacionalidade do Espírito Santo tanto na vida de Jesus como dos seus apóstolos e discípulos percebemos o quanto Maria estava inserida em Sua (do Espírito e do Filho) missão dinâmica.

Com uma linguagem objetiva dos fatos afirmamos que realmente Maria estava em Deus de tal forma que Este pode também viver nela! Atentamos, porém, que todo ato divino de condescendência salvífica realizada pela Santíssima Trindade sempre e primeiramente é um ato que parti do Seu amor decidido por nós e vontade livre!

Assim, podemos compreender que Maria não é ou foi, por si mesma, santa-imaculada, como se ela se autopreservasse da mancha do pecado original para, só depois, haver uma atuação ou humanação do logos em seu ser. Não. Ao contrário, cremos e afirmamos com certeza de fé que toda graça de santidade operada “na pessoa” da Mãe de Jesus, o Homem-Deus (por isso Theotokos Concílio de Éfeso, 431) foi obra exclusiva e primária do Filho e do Espírito Santo [2].

Desta forma, a redenção, que é ato exclusivo de Deus [3] se realizou também “na pessoa” de Maria tornando-a “primícia dos redimidos” [4]. Maria teve sim, necessidade de ser salva por Cristo; também ela foi criada por Deus e antes, porém, que ela cometesse ou fosse “infectada” com a mancha de pecado a Trindade, em sua infinita misericórdia, preservou-a (“redenção por preservação”) [5] desse mal que atingiu a humanidade por hereditariedade.

Destarte, como as missões das Pessoas divinas se diferem [6], a santificação de e também a concepção em Maria é realizada (em virtude dos méritos do Verbo eterno, o logos humanado na pessoa de Jesus que foi constituído o Cristo cf. At236) pelo Espírito Santo [7] com caráter de relatividade ao Pai e ao Filho.

Finalmente, junto com o Evangelho da graça de Deus proclamamos que Maria é verdadeiramente “bendita entre todas as mulheres”, não apenas por sua consangüinidade (aqui entra a vontade livre de Maria, sua subjetividade e adesão ao projeto-salvífico-divino), mas porque, e isso é superior (segundo os evangelhos), acreditou e permitiu que Deus fosse Deus em seu ser; e por isso, reconhecendo que o Todo poderoso fez nela grandes maravilhas, nós O bendizemos e O aclamamos, junto com ela que foi constituída (por Cristo) nossa Mãe na ordem da fé [8]: “Santo é o Seu Nome” (Lc1,46-49)!

[1] “Perichorese é um termo teológico usado para exprimir toda a presença de cada uma das pessoas trinitárias na outra”. LIBANIO, João Batista. A arte de forma-se. São Paulo: Loyola, 2001, p. 56. Ver também: BERG, Adriano Van Den. A Santíssima Trindade e a existência humana. In: REB, vol. 33, fasc., 131, setembro de 1973, p. 633.

[2] Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2002, §§ 721-726.

[3] SCHILLEBEECKX, E. -H. Maria, Mãe da Redenção: linhas mestras religiosas do mistério mariano. Petrópolis: Vozes, 1966, p. 31.

[4] MÜLLER, Alois; SATTLER, Dorothea. Mariologia. In: SCHNEIDER, Theodor (org.). Manual de Dogmática, vol. II. Petrópolis: Vozes, 2000, p. 168.

[5] SCHILLEBEECKX, op. cit., p. 40. Também: MÜLLER, op. cit., p. 168. “… a graça precede a todo pecado”.

[6] “… Pois o Espírito é uma Pessoa diversa do Verbo; possui algo de característico, detém uma missão própria, original e irredutível à missão daquele que se encarnou. Ele é um outro Paráclito (Jo1416)”. NOGUEIRA, Luiz Eustáquio dos Santos. O Espírito e o Verbo: as duas mãos do Pai: a questão pneumatológica em Yves Marie-Joseph Congar. São Paulo: Paulinas, 1995, p. 64-65.

[7] La concepción de Cristo es obra de toda la Trinidad, pero se atribuye al Espíritu Santo… AMIGO, Lorenzo. Los mas bellos textos sobre la Virgen: antologia Mariana sistemática. Madrid, 1983, p. 133.

[8] “A maternidade de Maria, tanto em relação a Jesus, como à comunidade eclesial, é conseqüência de sua fé…”. MURAD, Afonso. Quem é esta Mulher? Maria na Bíblia. São Paulo: Paulinas, 1996, p. 202.

 
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