
Obra resgata a filosofia sacra por meio de sentenças, parábolas e casos
ANA ELIZABETH DINIZ (Especial para O TEMPO)
"São Norberto de Xanten foi um cônego que sonhava com homens de branco caindo do céu sobre um chão inculto e cheio de espinhos".
Publicado no Jornal OTEMPO em 14/12/2010
Logotipo: Quadro do pintor italiano Fra Angelico, na Galeria Nacional de Londres, reproduz uma corte celestial para glorificar Jesus.
Uma agitada trajetória religiosa deu ao padre Durval Bara Baranowske, 33, tarimba para concluir uma empreitada trabalhosa: o resgate do pensamento dos santos de todas as épocas e estilos. O resultado dessa ampla pesquisa pode ser conferido agora no livro "O que Dizem os Santos", escrito em parceria com o também padre Hélio Soares.
Nascido em Montes Claros, aos 15 anos, Baranowske já estava no seminário menor dos cônegos Premonstratenses. Aos 20, deixou as abadias, priorados e o monastério dos padres franceses para ingressar no Convento Barnabítico dos Clériogos Regulares de Milão, Itália. Formou-se em filosofia no Instituto Santo Tomás de Aquino, em Belo Horizonte, ao mesmo tempo em que começou a estudar jornalismo.
Autor também de "Fogo na Cidade", Baranowske afirma que todos os santos deixaram um legado de virtude e honradez, "mas o maior feito deles foi ter conseguido integrar suas vidas num projeto de autenticidade e verdade".
Por isso, continua o padre, "eles fizeram do seu exterior o que estava no seu interior e foram chamados de santos, título que vem da palavra latina, sanctus, que significa inteiro, harmônico no corpo e na alma. Eles deixaram um exemplo de vida harmoniosa, amorosa, pacífica, tolerante, autêntica. Cheia de compaixão e de fraternidade".
E é natural que o padre também se identifique com esses homens que, antes de se tornarem santos, viveram a sua humanidade entre nós. "Gosto de são Francisco de Assis, sou devoto de são Judas Tadeu, mas tenho um apreço muito especial por um santinho muito pouco conhecido, Norberto de Xanten", diz, sobre o religioso que viveu na Alemanha do século XII.
"São Norberto de Xanten foi um cônego que sonhava com homens de branco caindo do céu sobre um chão inculto e cheio de espinhos. Por entre os espinhos, os homens de branco colhiam rosas. Devo confessar que isso tudo é muito simbólico, mas, para quem estudou teologia e espiritualidade, é muito pertinente", confessa.
Santos para todos. O padre não tem dúvidas de que a mensagem, os pensamentos de 600 santos e santas canonizados pela Igreja Católica, podem ajudar a humanidade ainda nos dias de hoje.
"Eles tratam de temas imortais. Essa obra não é naturalmente um manual de querelas, mas a reunião do pensamento de vários sábios que nos conduzem ao mundo mais fascinante de todos: o que existe dentro de nós mesmos. A viagem é por si mesma uma sucessão de panoramas deslumbrantes, paisagens inimitáveis que pintam os santos e as santas".
Segundo o padre, existem santos de toda natureza, revolucionários, mártires, sábios, filósofos, aristocratas, proféticos, médicos, eremitas, místicos, monges, mulheres de força e coragem e muitos outros. "As vidas terrenas dos santos foram jornadas longas, algumas monótonas e fatigantes, outras agitadas e revolucionárias", pontua.
Sábios ou mágicos. Em seu novo livro, o padre foca na humanidade dos santos católicos. Na abertura de cada capítulo, antes da apresentação do tema a ser tratado, há um pequeno trecho que evoca ora uma parábola, ora uma "estória", ora um pensamento, ora uma meditação.
O religioso ressalta que "os santos têm muito mais a nos ensinar como mestres que são do que a nos socorrer como mágicos". "As palavras dos santos, suas vidas exóticas, cheias de sabor, de poesia penetrante e cálida, são o que temos de melhor para nos espelhar. Além do universo místico de cada um deles, ainda nos restam, seus pensamentos e testemunhos", reafirma.
Enfim, sobre a devoção aos santos, o padre define como uma questão de "graça e sorte". "São muitas graças alcançadas. Não duvido delas, posto que, como diz santa Terezinha: ‘Quem muito ama, tudo alcança’", conta Baranowske.
