
Aqui nos propomos fazer um breve estudo do texto que se encontra no Evangelho segundo Lucas (15,1-32). Trata-se da parábola intitulada: “Parábola do filho pródigo” ou “Parábola do pai misericordioso”, o segundo título, inclusive, acredito ser o mais adequado.
Nesta parábola, utilizando elementos já conhecidos dos seus interlocutores, como costumava fazer, Jesus conta a história de um homem que tinha dois filhos. Sendo que o mais novo toma a decisão de deixar a casa paterna e por isso pede ao pai a parte da herança que lhe seria destinada. Recebendo-a vai embora. Porém, não fazendo uma boa administração dos seus bens, cai numa situação de miséria e depois de passar por muito sofrimento e humilhação resolve pedir auxílio na casa do pai, ainda que sua admissão fosse à condição de um servo, ou seja, um simples empregado. No entanto, diante de tal decisão, o jovem é surpreendido pela afetuosa e festiva acolhida, por parte do seu pai, que a muito esperava pela sua volta.
Na continuação da parábola Jesus fala também na postura rígida, fechada de um filho mais velho que reage com uma espécie de “ataque de ciúme”, ou de inveja diante da atitude do pai, para com o filho jovem que retornara.
Certamente toda a parábola em questão é de uma riqueza inestimável e oferece muitos elementos que poderiam ser “analisados” e comentados, no entanto, gostaria de me ater, de modo especial, àquilo que acredito ser o centro da “história”: o gesto amoroso do pai.
Ao falar desse pai, Jesus quer apontar o verdadeiro Pai Misericordioso: Deus, e sua bondade extremamente acolhedora. Sem dúvidas, uma das novidades trazidas por ele consiste exatamente na revelação dessa “face” de Deus como sinônimo de amor, misericórdia e bondade. Diferentemente de uma visão muito presente no mundo judaico, na qual até o nome de Deus era “impronunciável” por medo de se cometer abusos; visão que, inclusive, perdurou até nas pregações de João Batista sobre a vinda do Reino onde a imagem de Deus era associada ao “terrível”, cuja íra só de se pensar causava pavor. Jesus, embora plenamente humano, como os demais homens, e ainda, sendo plenamente judeu, faz a profunda experiência do amor de Deus. E nessa experiência ele descobre Deus como seu ABBA.
Segundo Giuseppe Barbaglio, a parábola do “filho pródigo” “quer ser um convite a descobrir na imagem do pai o amor e a bondade acolhedora de Deus, a se deixar evolver pela dinâmica deste amor, a participar na sua alegria” (BARBAGLIO, 1992, p.163). Evidentemente, a vida de Jesus Cristo é o maior modelo que podemos encontrar dentro desta perspectiva. A partir da sua experiência de intimidade com o ABBA, Jesus mergulha inteiramente na dinâmica desse amor e assim, toda a sua vida, suas palavras, seus gestos e todos os seus atos são pautados nessa relação. É nela que se fundamenta a sua missão. Nesta fonte, Jesus Cristo se “abastece” para levar amor a todos os sofredores.
Na verdade, “Jesus tinha uma relação única, muito íntima com aquele que chamava de “Papai”. Como o amor se difunde, Jesus não mantinha para si essa relação. Queria que os outros, graças a ele, entrassem em relação filial com o Pai” (Comissão Teológico-histórica do Grande Jubileu do Ano 2000, 1998, p.33). Podemos dizer que toda a vida de Jesus Cristo consistiu em colocar em prática, ou se assim posso dizer, em “atuar” o amor que é a “característica essencial” de Deus.
Portanto, Jesus Cristo rompe com o paradigma do Deus onipotente e distante e apresenta a partir da sua experiência o Deus próximo, amoroso e misericordioso que está sempre de braços abertos para acolher seus filhos. Penso que é esse o sentido da parábola contada por Jesus, segundo os relatos de Lucas (15,1-32).
Referências:
BARBAGIO, Giuseppe; FABRIS, Rinaldo; MAGGIONI, Bruno. Os Evangelhos (II). São Paulo: Loyola, 1992. 543 p.
GY, Pierre-Marie. Filiação. In: LACOSTE, Jean-Yves. Dicionário crítico de teologia . São Paulo: Paulinas-Loyola, 2004. p. 737-739.
LUCAS, A BÍBLIA DE JERUSALÉM, São Paulo: Paulus, 2002.
VATICANO Comissão Teológico-histórica do Grande Jubileu do Ano 2000. Deus Pai de misericórdia. São Paulo: Paulinas, 1998. 108 p. (Fé adulta).
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