
"O importante é que minha vida seja fecunda para outros: em primeiro lugar, para a comunidade na qual entrei para servi-la, depois para a Igreja que me toma ou tomou a seu serviço, depois para os homens, pois a Igreja é sacramento de salvação para os homens, e não para si mesma".
Querido Prior Milo, querido abade Sérgio, (Jaú) querido abade emérito Paulo, querido Prior Toninho (Montes Claros), queridos juniores das três casas brasileiras, querido Padre Rodrigo (Osorno), queridos confrades,
Com esta liturgia encerramos o nosso segundo encontro brasileiro (ou melhor: latino-americano) de juniores. Celebrar a eucaristia é dar graças. Queremos agradecer a Deus que nos reuniu aqui; Ele nos acompanhou e inspirou nestes dias, e Ele quer caminhar conosco no futuro. Agradecemos porque Ele nos chama a viver e trabalhar como jovens premonstratenses em nossas comunidades. Preparamo-nos à entrega inteira da profissão solene, pela qual nos colocamos à disposição do Senhor, e pela qual queremos consagrar a nossa vida a Ele. Esse caminho tem várias etapas: há esses encontros, mas também há toda a formação em nossas casas, especialmente o estudo e a iniciação na pastoral, que constituem passos importantes para que, mais tarde, o Senhor nos coloque a seu serviço.
Queremos agradecer neste momento, à casa que nos convidou e hospedou. Agradecemos à jovem canonia de Itinga – faz pouco tempo que ela se tornou independente – pela preparação e pela realização deste encontro. A sua organização e efetivação foram possíveis pela colaboração de muitos irmãos. Assim o encontro tornou-se maravilhoso, e coroado de êxito. Queira Deus que estes dias ressoem por muito tempo, e tenham um efeito duradouro em nosso “caminho para Deus”, como diz Santo Agostinho. O Senhor é a meta, e o fundamento de nossa vida, de nossa vocação, e de nossa vida comunitária.
Na primeira leitura, ouvimos as palavras conhecidas dos dez mandamentos, das dez orientações. Deus fez um pacto com seu povo. Porém, não se trata de ditar duras condições. Começa com uma promessa de Deus: “Sou Javé, o inefável, que lhe fez sair do Egito, da casa da escravidão!” Sou aquele que o libertou, que tem as melhores intenções, e que lhe assiste. No futuro, povo de Israel, você pode chamar-me “o nosso Deus”. Javé é o nosso Deus; depois de Jesus, podemos até chamá-lo “nosso Pai”. A promessa da acolhida e do amor de Deus vem antes dos mandamentos: as ordens e os mandamentos vêm depois. O Senhor é exclusivo, e mesmo ciumento, que exclui toda outra divindade. Deus é inefável, e está além de toda representação, aquele que exclui toda idolatria e imagem de ídolos. Deus é santo e absolutamente sacrossanto, o que proíbe todo abuso de seu Nome. Mas este Deus totalmente soberano não dita nem proíbe. Seria melhor traduzir as palavras “Não faça isso ou isso”, por “para mim não é possível matar, roubar, enganar, divorciar…” Fazer tais coisas é inconcebível para os que pertencem à minha família. Os mandamentos são orientações, são corrimões de segurança para proteger-nos, e não para embaraçar. Os mandamentos são uma corda de segurança que posso pegar. Os mandamentos não têm um caráter de arbitrariedade, senão de ajuda para a vida, oferecida por Aquele que nos guia em liberdade e “que nos libertou para que nós sejamos realmente livres” (Gal. 5, 1). Esses mandamentos estão também em vigor na Nova Aliança. Não foram abolidos por Jesus, senão condensados de forma genial num mandamento de amor a Deus e ao próximo. À promessa divina de salvação, à libertação por Deus, e a seu amor, podemos responder com um amor para o qual nada é demais, um amor que suporta tudo e que resiste a tudo.
No Evangelho ouvimos a parábola do semeador que semeia, e que encontra condições totalmente díspares na semeadura. Deus fala e dá orientações e mandamentos. Porém, como é isso recebido por nós? Como é acolhido? Com que disposição, abrimo-nos à Vontade do Senhor? Muitas vezes não queremos ouvir ou compreender. Muitas vezes recebemos a palavra do Senhor com entusiasmo, mas o fogo apaga-se logo, por nossa inconstância - falamos disso nestes dias. Não nos mantemos firmes, falta o nosso espírito de consequência e de paciência conosco mesmos. Muitas vezes preocupamo-nos com muitas outras coisas, com o nosso estudo, com os nossos planos ou idéias para o futuro, com a nossa posição dentro da comunidade, com os pequenos atritos entre nós, e assim a Palavra de Deus fica quase sem chance. Conhecemos as nossas fragilidades; e conhecemos ainda mais as dos outros. Porém, se estamos aqui, é porque muitas vezes acontece que ouvimos, entendemos, acolhemos, ficamos admirados, e produzimos frutos, quando uma palavra nos atinge e entusiasma, quando pensamos ter experimentado algo da força de Deus. Não é assim, que alguém me falou e chamou, da mesma maneira que Deus chamou Samuel, várias vezes durante a noite? Não aconteceu que alguém me ajudou, da mesma maneira como Samuel foi ajudado por Eli, que lhe disse: “Se Deus chamar outra vez, então diga simplesmente: Fale, Senhor, o seu servidor escuta.” ? Então houve assuntos que empreendi com seriedade e com constância: boas ações, bons desígnios, bons propósitos; na verdade, com a ajuda de Deus, muitas coisas deram resultado e foram fecundas. Sempre experimentamos a tensão entre, por um lado, a vocação e o chamado, e por outro lado, a submissão e a resposta. Agora, é evidente que, em tudo isso, não se trata somente de mim: a fecundidade de nossa vida será avaliada… O importante é que minha vida seja fecunda para outros: em primeiro lugar, para a comunidade na qual entrei para servi-la, depois para a Igreja que me toma ou tomou a seu serviço, depois para os homens, pois a Igreja é sacramento de salvação para os homens, e não para si mesma. Recordemo-nos da palavra do Senhor: “Se o grão de trigo não cair no chão e não morrer, não dará fruto”. Produzimos fruto, quando renunciamos a nós mesmos, quando nos entregamos (“trado meipsum”), quando morremos em Cristo, para viver com Ele; assim produzimos frutos em abundância.
Quero abordar ainda uma outra imagem. Hoje a Igreja celebra São Cristóvão. Segundo a lenda, ele levou o menino Jesus, atravessando um rio. Cristóvão é a tradução dum nome grego que significa: aquele que leva Cristo consigo. Esse nome me agrada, pois pode convir para todos nós. Da mesma maneira que São Norberto leva na custodia o Cristo presente no sacramento, assim nós devemos levar o Cristo em nosso coração, para levá-lo ao povo. Neste ano jubilar da morte de São Norberto, encontramos, pois, mais uma referência a nosso fundador. Que São Norberto seja o nosso intercessor e o nosso exemplo, que ele nos estimule e inspire, para que procuremos sempre a vida na proximidade do Senhor, para levá-lo ao povo.
Deixar este lugar hospitaleiro de Itinga significa:
1) crescer no amor para responder assim a Deus que nos ama, amando em primeiro lugar os nossos confrades, amando depois os homens para os quais somos enviados. 2) deixar que a Palavra de Deus oriente cada vez de novo a nossa vida, e traduzir continuamente olhando essa Palavra em nossa vida, para que gere frutos. 3) finalmente, arriscar a nossa vida, olhando para o Senhor, e levar o Cristo para o povo, seguindo o exemplo de Cristóvão e de Norberto.