
Etimologicamente a palavra spíritus tanto em latim quanto em grego significa “sopro”, “respiro-vital”. Este spiritus pode na tradição grega do período mitológico, está relacionado com o universo sobrenatural, tudo no que tange as entidades sobrenaturais ou imaginárias, como os deuses.
Essas entidades influenciavam diretamente a organização destes povos. A relação com o sobrenatural impunham-lhes leis e normas à maneira de relacionar em comunidade (moral).
Na filosofia racionalista da Idade grega clássica, com Sócrates, Platão e Aristóteles, o espírito é traduzido como intelecto. A alma, ou pensamento puro, é a energia que liga o não-material ao material, isto é, é a ligação que o homem tem com o Bem absoluto. É a única coisa que após a sua morte voltará para o universo do sobrenatural.
No Antigo Testamento, a sabedoria divina é conhecida como um sopro animador (ruah) que invade todo o universo. No Novo Testamento este Espírito Santo é personificado e constitui, segundo as laboriosas definições cristológico-trinitárias do magistério, a terceira pessoa da trindade. Com São Paulo e os Padres da Igreja, o homem novo e espiritual, na medida em que é vivificado pelo Espírito Santo, que habita no seu coração, opõe-se quer ao “espírito carnal”, quer ao puramente psiquismo.
Hegel, na filosofia moderna, considera a essência do espírito como liberdade. Para ele a liberdade, essência formal do espírito, não permanece apenas no coração, mas concretiza-se na família, na sociedade e no Estado.
Pretende-se com isto mostrar em breves palavras como a humanidade simbolizou e compreendeu a relação entre o homem e Deus. Estas explicações supracima revela que nem só de corpo vive o homem, mas de tudo aquilo que ele simboliza e estrutura na pretensão de dar sentido, valor e significado para sua vida. Assim alguns utilizaram e utilizam a razão (intelecto) para direcionar sua existência, por exemplo a tradição filosófica. Outros deixaram-se guiar pela vontade de Deus, ou o Espírito de Deus por, exemplo, o encontro no cenáculo os (as) discípulos (as) sem ânimo após a morte de Jesus e sua função pois de animar os que ali se encontravam.
A tradição católica considera que o espírito do homem é habitado pelo Espírito de Deus que o renova (Ef 4,23), que “a ele se une” (Rm 8,16) para neles suscitar a oração e o brado filial, para uni-lo ao Senhor e perfazer com ele um só espírito (1 Cor 6,17). É pela fé que deixamos o espírito de Deus nos guiar para a salvação prometida, mas enquanto isso ele nos comunica um jeito novo de viver entre os irmãos. Para o teólogo da libertação, Leonardo Boff, “viver no Espírito é buscar o ser novo cuja plena realização se deu no Senhor ressuscitado. E o Espírito é aquele que dá a vida (Jo 6,33) e suas obras são o amor, a alegria, a paz, a tolerância, a cortesia, a bondade e a fidelidade (Cf. Gl 5,22)”.
Há um elemento comum na busca da verdade e da justiça, no homem do período Mitológico/ imaginário, do período da alta razão/ intelecto e no período da Cristandade, isto é do homem que através da fé se deixa guiar pelo Jesus de Nazaré.
Este elemento que povoa a vida do homem é o imaginário. A imaginação seja ela voltado para o divino ou para si mesmo é a base na qual o homem busca se organizar no seu habitat. Os que se voltam para o divino, para os cristãos é o Deus-Pai, numa atitude de abertura e escuta de Sua Palavra como mestra e guia da sua existência. Já os que se voltam para si ou para um outro não divino, isto é que encarnam para si aspecto individualista, materialista e racionalista, embora estes aspectos estejam em seu imaginário, sua existência é marcada por valores como a competição exacerbada, a ganância e o hedonismo. Este não deixa de ser conduzido pelo espírito, mas este espírito deve ser compreendido diferentemente dos cristãos. Aqui pode se falar de espírito individualista e de exclusão para com aqueles que não entraram neste esquema ontológico que escraviza, ao contrário de libertar. É de se reconhecer que são muitos, por diversas razoes, os que optaram por este caminho. Até provar o contrário a espiritualidade é ontologicamente uma realidade presente no ser humano, que ele pode cultivar ou não, orientá-la para Cristo ou não.
Nossa espiritualidade se baseia, para usar as palavras de Frei Beto, num Deus que apresenta curriculum, é o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. Frei Beto, diz que os gregos “piraram” porque achavam que o Deus dos judeus era de segunda categoria, porque precisou de vários dias e ainda ficou cansado e teve que descansar no sétimo dia.
Para Frei Beto a questão da espiritualidade não é uma questão simplesmente religiosa, ela é uma questão de educação da subjetividade e da interioridade, seja a pessoa confissional ou não. Essa reeducação proposta por ele nos leva a comunhão conosco mesmo, para a comunhão com a natureza, com o próximo e com Deus. acredito que é nesta reeducação da nova vida voltada para os frutos do espírito que levou João Paulo II, da janela do seu quarto a não anunciar com palavras, pois esta já não as tem, por dificuldade fisiológica, mas sim expressar seu espírito de paz a todos os corações numa missão incansável de amor e testemunho de Cristo ressuscitado, a cristãos e não cristãos.
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