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Prior Toninho Galvão de Campos Arruda Filho o.praem. 09/07/11

Crônica sobre o encontro de mestres em Strahov (Praga)

Como todos os confrades Montesclarenses já o sabiam, nosso Priorado de Montes Claros, em reunião do conselho do Prelado, decidiu que os formadores Côn. Elâneo e Côn. Oswaldo não iriam ao encontro dos formadores, que se realizou em julho deste ano na Abadia de Strahov, em Praga, mas seriam representados por mim, por causa de eventuais dificuldades de compreensão e comunicação que poderiam enfrentar nesse encontro por causa da língua, uma vez que o mesmo aconteceria na língua Inglesa, sem tradução. Também a Abadia de São Norberto de Jaú se encontrava em situação semelhante, pois os formadores não desejavam ir por causa da língua. Dom Oswaldo Paulino, de Jaú e eu conversamos com o delegado do Abade Geral, Dom Paulo Meyfroot, para saber sua opinião, se valeria ou não a pena que Dom Oswaldo e eu fôssemos ao encontro, pelo fato de não sermos os formadores de nossas Canonias, muito embora participássemos também da formação de nossos juniores, ministrando-lhes alguns conteúdos formativos. Dom Paulo considerou sim, muito importante que nós fôssemos ao encontro, a fim de podermos repassar aos formadores de nossas Canonias o conteúdo, as partilhas, os encaminhamentos e decisões acontecidos no mesmo.

Nesse ínterim, a Abadia de Jaú decidiu que também Pe. Josenildo fosse ao encontro, e assim, no sábado, dia 9 de julho, à noite, Dom Oswaldo, Pe. Josenildo e eu viajamos de São Paulo a Roma, e de Roma a Praga, lá chegando no domingo à tarde (do horário europeu). Apenas desembarcados, nos encontramos no aeroporto de Praga com Dom Paulo Meyfroot, que também estava chegando de Leffe no mesmo horário, e logo ao sair do desembarque, nos encontramos com o Prior de Strahov, Pe. Bartoloměj, que nos estava aguardando e nos conduziu para a Abadia.

Lá chegando, fomos fazer o “check-in”, com Pe. Marek, que nos forneceu as informações prelimilares do encontro, nos entregou as chaves dos quartos e da Abadia, bem como o material a ser utilizado por nós no encontro.

Ele nos informou que Dom Paulo e eu teríamos o quarto na própria Abadia, enquanto que Dom Oswaldo e Pe. Josenildo, hospedar-se-iam no Convento dos Capuchinhos que era próximo dali (cerca de uns 900 metros da Abadia). Eu objetei que não seria conveniente que os confrades de Jaú ficassem os dois fora da Abadia, por poderem ter eventuais dificuldades com a língua, e que seria melhor que um dos dois estivesse próximo a Dom Paulo, e o outro próximo a mim. A proposta foi aceita, e assim Dom Oswaldo e eu fomos para o Convento dos Capuchinhos, próximo à Igreja de Loreto (cópia da Igreja de mesmo nome da Itália, que a tradição diz ter em seu interior a Casa de Maria Santíssima, transportada miraculosamente por Anjos, de Nazaré para Loreto), onde nos hospedávamos no final do dia para o banho e para dormir, sendo que todo o dia passávamos na Abadia mesma.

Na noite do dia da chegada, participamos da Celebração Eucarística na Igreja Abacial, às 18:00 horas, e após, houve uma confraternização com churrasco num dos pátios da Abadia, onde nos encontramos com os confrades já chegados. Havia cerca de 30 confrades (e co-irmãs) ao todo. Várias casas da Ordem não puderam fazer-se representar, como, por exemplo, as da Índia e da África, entre outras da própria Europa. Também algumas das Irmãs da Ordem estiveram presentes: da Eslováquia e da República Checa. Nessa noite encontramos também Pe. Milo, que participou apenas da chegada e do primeiro dia, uma vez que na terça-feira cedo ele estaria retornando a Viena, e daí para o Priorado de Itinga. Foi um momento agradável, do qual, porém, não conseguimos desfrutar por muito tempo, pois estávamos exaustos da viagem que durara desde o sábado à noite de nosso horário (sendo que eu já havia partido de Montes Claros na noite do dia anterior rumo a São Paulo), até o domingo no final da tarde do horário Europeu e, assim, logo nos recolhemos para dormir, uma vez que no avião, em poltronas muito apertadas e desconfortáveis, não conseguíramos dormir, e no dia seguinte as atividades iniciariam cedo.

Na segunda-feira às 7hs30’ celebramos as laudes na Igreja da Abadia, e logo após, houve o café da manhã e, a seguir, um “tour” guiado e explicado por um confrade, pela Abadia que é muito grande e bonita, e muito antiga, sendo sua fundação do século 12, embora tendo passado por várias reconstruções e reformas. A Igreja atual é de estilo Barroco. Na Capela do Santíssimo repousa o corpo de São Norberto que, quando a cidade de Magdeburgo aderiu à Reforma Protestante, foi trasladado do Convento de Santa Maria de Magdeburgo para Praga. Nessa Capela é que aconteciam diariamente as Celebrações Eucarísticas, “aos pés” de nosso fundador. Há na Abadia um museu, com quadros e ícones muito antigos e muito belos, bem como uma representação artística em tamanho natural, em acrílico, com as imagens vestidas em belos e ricos paramentos antigos dos abades da Ordem, transportando os restos mortais de São Norberto, de Magdeburgo para Strahov (Praga), e também uma grande e maravilhosa maquete de todo o complexo da Abadia de Strahov. A biblioteca da Abadia é imensa e maravilhosa, de inestimável valor, com preciosidades bibliográficas particularmente de Filosofia, mas também de Teologia e outros assuntos. Às 12:00 hs. tivemos a Celebração Eucarística com a hora média, na Capela do Santíssimo (e da Tumba de São Norberto) presidida pelo Abade Geral e a seguir o almoço, horário esse que se repetiu em todos os dias do encontro.

Em todos os dias do encontro, as Laudes e as Vésperas foram rezadas na Igreja Abacial, a primeira às 7h30’ e a segunda às 19:00 hs (menos na quarta-feira, pois nesse dia rezamos as Vésperas com as Irmãs Premonstratenses em seu mosteiro, em Doksany); e as Celebrações Eucarísticas com a hora-média aconteceram na Capela do Santíssimo e da Tumba de São Norberto ao meio-dia. Dentro do programa do encontro constavam uma leitura espiritual a respeito da vocação: “Um olhar Bíblico da Vocação” por Jaroslav Brož ThD, SSL; a palestra do Abade Geral, “Magister Meeting in Strahov, Prague, CZ, July 10 -16/ 2011”; a palestra a respeito da “Contribuição da Psicologia à Formação Espiritual”, por Dr. Jindřich Kabát; a palestra do confrade Pe. Jindrích Zdík Jordánek O.Praem., a qual não aconteceu, pois o palestrante não a pode fazer, por motivo de doença; a palestra do Prof. Zoller, S.J., “A maturidade afetiva e a sexualidade humana”; e a palestra do confrade da Abadia de Orange, Pe. Ambrose Christ O.Praem. sobre “O Fórum interno e externo na formação”; momentos de partilha em grupo; uma visita a pé ao centro de Praga; um passeio de ônibus a Doksany e Terezí.

O Abade Geral Dom Thomas, em sua palestra, agradeceu ao Abade e ao Prior de Strahov, bem como a todos os colaboradores que se empenharam na preparação e na realização do encontro, assim como a todos os que se esforçaram por estar presentes; lamentou a ausência das Casas que não puderam mandar seus representantes; lembrou os encontros precedentes de mestres já ocorridos nos últimos anos; falou da alegria de estarmos ali reunidos ao redor da tumba de nosso fundador e intercessor São Norberto, a quem confiava a condução desse encontro e o futuro da Ordem, bem como os trabalhos do nosso próximo Capítulo Geral, em De Pere; falou da importância do papel e do ministério dos formadores a partir do que pontuam nossas Constituições; falou de seu desejo de que através de nossas partilhas e reflexões nesse encontro pudéssemos chegar a um esboço de uma “Ratio Generalis” para todas as etapas de formação, desde as iniciais até à formação permanente (de forma semelhante a que já temos em nossas Constrituições, a “Ratio studiorum” para o noviciado canônico) que pudesse ser proposta para o próximo Capítulo Geral, naturalmente a ser adaptada à realidade de cada Canonia; lembrou-nos alguns documentos importantes do Santo Padre e do Magistério da Igreja sobre a formação sacerdotal e religiosa, bem como outros textos importantes para nos ajudar a bem viver a vocação e missão de formadores; colocou as suas expectativas para este nosso encontro, a partir das trocas e partilhas do material e bibliografia utilizados nas diversas Canonias, bem como dos desafios e êxitos vivenciados pelos formadores; falou também da crise das vocações e do que cada confrade poderia fazer a respeito das promoções vocacionais em suas próprias pastorais; e a respeito das metas para a formação, enfatizando a “fraternidade sacramental”, a “integralidade holística no encaminhamento do programa formativo”, e a “cultura da vocação” como clima propício a ser criado e cultivado em nossas Canonias e Casas, e sobre seus desejos e esperanças; terminando com a oração composta para a preparação ao próximo Capítulo Geral.

A palestra bíblico-espiritual nos ajudou a dar uma vista de olhos a algumas vocações bíblicas, colocando-nos diante da realidade e da sublimidade do chamado de Deus e do desafio de crescimento, superações e de fé que este implica a cada vocacionado.

Dr. Jindřich Kabát, na palestra dos contributos da psicologia à formação espiritual, recordou-nos numa ótica técnica de Psicologia, as condições básicas de maturidade humana necessárias para poder responder adequadamente ao chamado à vida consagrada religiosa e sacerdotal e dos problemas de traumas e experiências negativas que possam constituir empecilhos à vivência da vocação sacerdotal e ou religiosa.

Também a palestra sobre a maturidade afetiva e a sexualidade humana, ministrada pelo Jesuíta, Prof. Zoller, trouxe-nos excelentes contributos que evidenciaram para nós as exigências pontuadas pelo Magistério da Igreja, de atenção aos elementos imprescindíveis para a vivência serena, integrada, madura, da afetividade e da sexualidade humana no celibato consagrado, e a necessidade de tratarmos do assunto com transparência em nossas casas de formação, e darmos a adequada ajuda à integração humana, afetiva, sexual e espiritual de nossos formandos.

A palestra do último dia do encontro, do confrade Orangense, Pe. Ambrose ajudou-nos a refletir sobre o fórum interno e externo na formação, ou seja, o que toca ao fórum interno sacramental (que diz respeito a tudo o que é segredo de confissão) e não sacramental (e que, muito embora, como o código de Direito Canônico pontua, por defesa do direito de cada indivíduo, não possa ser inquirido ao candidato por superior ou formador, deveria sim ser aberto, por decisão livre e espontânea, pelos formandos aos seus formadores, para destes poderem obter uma eficaz ajuda de crescimento vocacional), e o que tange ao fórum externo, que é publicamente conhecido ou acessível pela observação que se possa fazer dos comportamentos de cada candidato; e sobre a necessidade de buscarmos em nossas Canonias, uma formação integrada, holística, que favoreça mais eficazmente, a exemplo da paternidade espiritual dos monges do deserto, ao crescimento espiritual de nossos “filhos espirituais”, os noviços e demais formandos, bem como do amor, oração e outras virtudes que esse tipo de formação exige da parte dos formadores para com seus formandos. A quase cada uma das palestras, sucedeu um tempo de partilha e reflexões em grupo, também com busca de respostas a alguns questionamentos levantados, como a solicitações de sugestões feitas pelo Abade Geral, à procura de elaboração de um rascunho de “Ratio Generalis” para a formação continuada em todas as Casas da Ordem, bem como de nomes para a composição de uma comissão que se dedicasse a trabalhar sobre essa “Ratio” para apresentar uma primeira proposta aos Capitulares em nosso próximo Capítulo Geral. Nessas ocasiões reuníamos Dom Paulo, Dom Oswaldo, Pe. Josenildo e eu (sendo que no encontro do primeiro dia, reuniu-se conosco também Pe. Milo), e então partilhávamos sobre o assunto solicitado, a partir da realidade de nossas casas do Brasil.

Na terça-feira à noite, após o jantar, tivemos um passeio a pé pelo Centro da cidade de Praga, com visita à maravilhosa Catedral, à praça central, onde está o famoso relógio onde às horas saem de um nicho na torre, as imagens de São Pedro e São Paulo para bater o sino, sinalizando o horário (o que, porém, não conseguimos ver em funcionamento). A cidade é maravilhosa, e um verdadeiro formigueiro humano de turistas circula pelas ruas do centro, entre os quais encontramos também vários brasileiros, bem como a cada momento ouvíamos grupos falando Italiano, Francês, Inglês, Espanhol, Alemão, Japonês. A cidade parece também primar pela cultura, pois encontramos várias apresentações públicas de Teatro, Ópera, e diversos Concertos de música Clássica.

Na quarta-feira após o almoço tivemos um especial que nos levou à cidade de Terezí, onde visitamos uma antiga igreja imperial (do Imperador Francisco José) e atual Paróquia Premonstratense onde um jovem confrade é pároco de apenas cerca de vinte fiéis que vêm às missas dominicais, dos quais parece que dez sejam doentes de um hospital psiquiátrico. A cidade é muito triste e deprimente, pois nela estão as muralhas construídas pelo imperador Francisco José para defesa dos ataques de adversários, dando-lhe o nome de Terezí em homenagem à sua mãe que se chamava Tereza, muralhas essas que foram aproveitadas e utilizadas pelos nazistas, como campo de concentração, onde morreram mais de três mil judeus, dos quais a maioria por enfermidade e pestes, e em menor número mortos por fazerem parte da resistência Checa. Uma visita com seu valor histórico, porém muito deprimente por se poder ver de perto, com horror, a barbárie à qual os seres humanos são capazes de regredir, bem como imaginar as humilhações e sofrimentos atrozes a que tantos irmãos nossos aí foram cruelmente submetidos. Após essa visita nada agradável, o passeio tornou-se mais leve e belo, ao chegarmos a Doksany, ao maravilhoso mosteiro das Irmãs Premonstratenses, onde visitamos a belíssima Igreja também Barroca, com afrescos maravilhosos da vida de São Norberto, belíssimas imagens de Nossa Senhora, São Norberto, Santo Agostinho, São Dimas, e outras, onde fomos recebidos com muito fraterna e carinhosa hospitalidade por nossas irmãs que nos prepararam um delicioso lanche da tarde, e concluímos nossa visita cantando as Vésperas com elas, e voltando então para Strahov, encerrando o dia com o jantar.

Na quinta-feira à noite, para quem quisesse, houve um concerto de música clássica dado pelo organista da Abadia, ao qual Dom Oswaldo e eu não estivemos presentes, mas Dom Paulo e Pe. Josenildo, sim. No encerramento, na sexta-feira à noite houve uma confraternização da qual também não participamos, pois nos recolhemos mais cedo, uma vez que no dia seguinte teríamos muitas horas de viagem pela frente. No sábado pela manhã concelebramos a Santa Missa e partimos para Roma, onde ficaram Dom Oswaldo e Pe. Josenildo, e de onde eu, encontrando-me com minha mãe que lá ficou durante os dias do encontro, parti com ela para a Alemanha, para visitarmos meu sobrinho (e neto dela) e sua família por dois dias. Da casa deles, fizemos um passeio a Hameln (cidade pitoresca famosa pelos contos dos irmãos Green “O flautista de Hamelin”), e no outro dia a Magdeburgo, onde visitamos a Catedral (hoje Protestante) onde nosso Pai São Norberto foi Arcebispo, e pretendíamos visitar o antigo mosteiro Premonstratense de Nossa Senhora de Magdeburgo, que hoje é um museu de arte moderna (e onde São Norberto foi sepultado), mas este estava fechado por ser uma segunda-feira, e assim somente pudemos ver a bela Abadia por fora. Fomos então visitar uma das poucas igrejas católicas da cidade, a Igreja de São Norberto, construída no século XIX, antiga e escura (de “matone”) por fora, mas muito clara e moderna por dentro, onde há um belo Tabernáculo do Santíssimo, e belíssimos baixo-relevos modernos em cerâmica, a cada lado do Tabernáculo, de Nossa Senhora e de São Norberto. Depois retornamos a Roma, por mais um dia, tendo feito uma breve visita a nossa Casa Geral, onde nos encontramos com Dom Thomas e com o Pe. Stephen, e no dia seguinte nos reencontramos, já no aeroporto de Fiumicino, com Dom Oswaldo e Pe. Josenildo para nossa viagem de volta ao Brasil.

O encontro dos Mestres (e de alguns Prelados) de Strahov foi uma excelente oportunidade de reflexão e de partilha com confrades (e co-irmãs) de diversas casas de nossa Ordem. Registramos com pesar a ausência de nossos confrades da Índia e da África, bem como de várias casas da Europa, entre outras. O clima entre os presentes era de muita fraternidade, descontração e alegria, revendo a vários confrades e amigos conhecidos e tendo oportunidade de conhecer a vários outros até então não encontrados. Que o Espírito do Senhor nos ajude a colher muitos frutos das reflexões e enriquecimentos recíprocos aí vivenciados, e encontrar caminhos novos e frutuosos para a vivência dos desafios do tempo presente na árdua e sublime missão da formação de nossos jovens candidatos à vivência de nossa vocação e missão norbertinas no presente e no futuro de nossas Canonias.

Pirapora do Bom Jesus, 05 de agosto de 2011
Côn. Antonio Galvão
Prior do Priorado de Nossa Senhora Aparecida e São Norberto de Montes Claros

 
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