Querido administrador abade emérito Paulo, queridos irmãos,
Em primeiro lugar, gostaria de saudar muito cordialmente a todos vocês reunidos neste capítulo de eleição, e dessa maneira também iniciar oficialmente este capítulo. Alegra-me que o abade emérito Paulo, como “delegado do abade geral” para América Latina, e até agora administrador desta canonia, esteja presente e presida comigo a esta eleição.
Cada um de nós tem consciência que uma votação como essa, é sempre um assunto de grande importância para um convento e para a história duma comunidade. É um momento de balizagem do futuro, mesmo independentemente da decisão que vier. Poder-se-ia dizer que, por um momento, o curso do tempo é suspenso, para organizá-lo de novo. Quem guiará a comunidade no futuro? Quem vai dirigir à comunidade nos próximos anos, e “exercer o serviço da autoridade com solicitude pastoral, por palavras e exemplo” como dizem as nossas Constituições (n°107)?
Este momento é especial também para mim, assumindo aqui, como abade geral, a presidência deste capítulo de eleição. No passado, - faz exatamente dois anos,- eu já estava aqui como seu hóspede, na ocasião do encontro dos jovens brasileiros (24-26.01.2006). Foi um encontro lindo, cheio de vida e vitalidade. Junto com o arcebispo Geraldo, celebramos o encerramento, aqui, no priorado. Antes daquele encontro, pude visitar a casa de Contagem, perto de Belo Horizonte. Os dias, vividos aqui em Montes Claros, me abriram os olhos para a variante brasileira da vida premonstratense. O trabalho pastoral nas paróquias de São Norberto e da Rosa Místíca me impressionou. Vi os empenhos para desenvolver o Priorado como centro de vida comunitária. Senti de não poder presenciar a consagração da igreja. Ora, o priorado tem agora um centro espiritual, porque a igreja é o coração de cada canonia, não é? A minha segunda visita é dedicada a toda a canonia de Montes Claros. Hoje é dia da eleição; elege-se um novo superior. Neste momento, gostaria de agradecer muito cordialmente aos superiores anteriores: o prior de regimine João Batista Joaquim Tarcisio de Souza Lopes (2001-2005) e depois, o administrador abade emérito Paulo (2005-2008) pelo período em que teve aqui a responsabilidade, e se engajou com toda dedicação àquela missão. Na verdade, um momento comovente para um europeu, para mim como abade geral, e para todos nós.
Porém, não se trata, neste momento, do que eu sinto, senão da decisão que a comunidade de Montes Claros vai tomar para o seu futuro. Não se trata do que a gente, no exterior queira especular ou imaginar, senão duma dupla opção da canonia: o melhor caminho e uma decisão convincente relativa a alguém. Cada irmão tomará a decisão em toda a consciência, para si e para toda a canonia. Que o Espírito divino nos inspire e guie nesta hora.
A história de cada casa é distinta. A história desta canonia não é tão antiga, porém faz mais de cem anos: foi fundada em 1903 pela abadia de Park. Houve períodos bons e anos esforçados: o tempo do começo penoso, a fase da formação das estruturas, e a época duma consolidação lenta. Desta comunidade sairam grandes personalidades; entre elas dois arcebispos, Dom Geraldo Majela João José de Castro, arcebispo emérito de Montes Claros (1982-2007) e a sua Excelência Dom Ricardo Pedro Chaves Pinto Filho, bispo de Leopoldina (1990-1996) e atualmente arcebispo de Pouso Alegre (desde 1996). Não sabemos o que o futuro nos trará. Deus queira que sejam tempos favoráveis e anos felizes para a vida conventual e para sua influência espiritual na cidade de Montes Claros, e nas missões que os irmãos vão receber aqui.
Normalmente, elege-se como superior um irmão da comunidade. Por isso será um irmão que já vive há bastante tempo com a comunidade, que exerce co-responsabilidade, e que, por sua intenção e seu coração, está vinculado com tudo. Assim, não acontecerá algo totalmente novo. Será “um de vocês” , - sem mais alusão à palavra de Jesus! Um irmão do círculo de vocês deverá assumir e levar essa tarefa: o papel da direção, a responsabilidade do conjunto, essa forma de serviço aos confrades. A função do superior é um dos serviços dentro de uma comunidade. Embora seja mais exposto, e também mais observado do exterior, o serviço do superior não deixa de ser fundamentalmente uma tarefa e um serviço à comunidade. A função do superior não é um espaço para a auto-encenação ou a auto-exibição; deve ser vista e interpretada segundo o sentido de Jesus: “Quem entre vocês quer ser o primeiro, deverá ser o escravo de vocês” (Mc 10.44). Ele deve cuidar de seus irmãos, estar disponivel para eles e deverá intervir a favor deles; para os irmãos, deve ser possível encontrá-lo, conversar com ele, e contar com ele. Não precisamos fazer aqui uma lista de virtudes, porque se compreende o que significa aqui “entrar no serviço”, a favor dos outros, a favor da comunidade inteira e da representação no exterior.
Não precisamos esboçar aqui uma imagem ideal. Nas Constituições fala-se de maneira mais reservada dessa função do superior:
A Regra de Santo Agostinho:
Ele, “deve sentir-se feliz, servindo pela caridade” (Regra VII)
As Constituições
n° 107:
O prelado deve presidir e animar (como animador) a canonia que governa. É igual a todos, como pessoa humana, e distinto, pelo serviço do ministério.
Quem preside uma comunidade, deve fazê-lo - como já citado anteriormente - com a solicitude dum pastor, falando e dando o exemplo. Ele dará o bom exemplo e será um bom - exemplo.
Sobretudo, procurará com zelo fortalecer um equilibrio sadio entre as pessoas e a comunidade, para o crescimento espiritual e material de ambos os lados. Talvez, esse papel de mediação e de equilibrio seja o mais difícil para realizar.
Colaborando ativamente com todos os membros da canonia, e com cada um individualmente, o prelado promoverá a comunidade, dirigindo-a, exortando e, se for necessário, prescrevendo.
n° 108
Como superior maior, investido do poder de jurisdição para o foro interno e externo, o prelado é o ordinário de todos os religiosos. Ele deve realizar tudo o que, pela sua própria autoridade, pode decidir, ou que deve tratar ou decidir com o conselho ou com o capítulo da canonia ou da casa.
n° 109
Como presidente dum grêmio presbiteral, o prelado seja também o inspirador e o coordenador do trabalho pastoral da sua comunidade.
Hoje em dia, ninguém vai insistir incondicionalmente, em assumir uma tal responsabilidade. Passaram os tempos do poder absoluto. Porém, é necessário que um irmão se dedique a isso e se torne disponível. Ao conseguir ele a confiança da maioria, aquela maioria, e oxalá também os outros, vão sustentá-lo, aceitá-lo e acompanhá-lo com uma atitude crítica, sim, mas benévola. Numa comunidade, fundamentalmente cada membro é responsável de si mesmo, dos outros e do conjunto. Cada um é co-responsável das formas nas quais a comunidade se manifesta e se apresenta pra dentro e pra fora. Ninguém pode ou deve dar-se ares de grande senhor, dizendo: não tenho nada a ver com isso. Para ninguém, a evolução da comunidade é indiferente. É um direito de cada um falar algo, apresentar uma proposta ou uma crítica. Mas cada um tem também o dever de dar a sua opinião, de levantar a voz, diante de evoluções com as quais já não pode concordar. Ainda que talvez isso não sempre seja agradável, e que não seja o papel mais agradável dentro da comunidade, essa função não é renunciável e, talvez não seja menos importante do que o serviço tradicional da autoridade. Isso não tem a ver com uma crítica permanente ou com uma oposição contínua; é o contrário de eclipsar-se e criticar pelas costas; é uma expressão duma responsabilidade maior e duma participação leal no progresso do conjunto. “Eu também tomo a peito, o que no convento funciona bem ou mal.” O superior, o abade, aqui o prior de regimine, o responsável, aquele que serve mais ao bem do conjunto, - todos eles têm a missão do pastor, do guarda, do pai no sentido bom da palavra, que acompanha e encoraja, que coordena e dá estímulos.
Ele precisa da lealdade e da crítica, da colaboração e da cooperação, do conselho dos conselheiros e da sugestão do confrade; ele precisa sobretudo, da aceitação e da discussão correta e direta. Antes da eleição, houve talvez muitos momentos de nervosismo, de polarização ou mesmo de dano; porém, depois da eleição deve vir a vontade para construir comunhão, colaboração, solidariedade e um novo começo. Falando com termos modernos, diriamos que o superior não constitui uma sociedade anônima chamada de “Eu”; ele é o animador de projetos duma sociedade chamada de “nós”. O superior não representa a Cristo, como acontece na concepção beneditina, onde se fala ao superior como “pai abade”. Segundo a nossa visão canonical, é o próprio Cristo que está no centro do convento, enquanto que o superior está no círculo dos irmãos, como “primus inter pares”, no mesmo nível, mas com uma função própria, a da direção.
Ao falar assim disso, sou bem consciente que, depois de 18 anos como prior de regimine, depois de 9 anos como abade, e agora como abade geral em Roma, eu nem sempre fiz justiça a essa forma descrita de ser superior. Não apresento esse modelo com arrogância, senão bem consciente de meus limítes. Apesar do bom propósito e da melhor vontade, o superior tam- pouco conseguirá corresponder sempre àquela imagem ideal do prelado, do superior, do guia e do animador. Não obstante, cada comunidade precisa de alguém, que faça da unidade e da prosperidade dela, sua ocupação e sua preocupação principal, sem prejuízo da co-responsabilidade de cada irmão.
Gostaria de declinar uma palavra do Papa João Paulo, que exigiu a transformação da Igreja numa casa e numa escola da vida comum. É a tarefa do superior de transformar essa igreja de Montes Claros numa casa e escola de vida comunitária. Segundo aquele Papa, isso continua sendo o grande desafio, no começo deste século. Por todo o lado, percebemos os perigos para a comunidade. Aumentam os conflitos, as guerras e as situações penosas num mundo onde vão desaparecendo as distânçias (no duplo sentido). Está em jogo o fomento duma espiritualidade de comunidade. Nisso vejo a tarefa principal do superior: empreender tudo para fortalecer as forças centrípetas, juntar grupos de irmãos, fazer que a comunhão seja compreendida e experimentada, promover ou lançar novamente o diálogo entre os irmãos, precisamente porque aqui, na situação concreta de Montes Claros, alguns irmãos moram fora e, às vezes, estão sós na vida e no trabalho.
+ Penso aqui no grande desafio e na grande responsabilidade para com o grupo numeroso de juniores, que podem esperar a melhor educação e formação para uma vida canonical. Aqui, nesta casa, a missão e a função do mestre de noviços e juniores é particularmente importante; procura-se sobretudo uma competência espiritual do novo superior.
+ Penso na importância do centro espiritual da canonia e das comunidades formadas pelos que vivem na mesma casa: nessas comunidades, a vida comunitária deve ser treinada, cultivada e intensificada pelo capítulo da casa e da canonia.
+ Penso na importância da liturgia diária e da eucaristía celebrada cada dia na casa; penso na importância do silêncio e da contemplação, da leitura bíblica e da adoração, para criar ou conservar uma atmosfera conventual.
+ Penso no ensaio dum estilo de vida simples e sem pretensões para todos os irmãos, e numa administração econômica e financeira transparente, controlada pelo conselho e pelo capítulo canonical.
+ Tudo isso pertence ao papel convidativo, animador e incitador do futuro prior, exercido às vezes com insistência, mas sempre com caridade e paciência, com amabilidade e tenacidade. É a missão importante do superior, agir e intervir como construtor da comunidade, como representante da comunidade, como guarda e advogado da ‘comunhão’.
Pois bem! Que a eleição seja séria, suportada pelo Espírito de Deus, uma feliz decisão, uma votação que olhe para o futuro, e que tenha condições para durar. Cada um de nós, e gente até de longe daqui, deseja à canonia de Montes Claros uma boa votação, um bom caminho. Muitos rezaram por isso.
Comecemos então, com a ajuda de Deus.