
3.3 Perspectivas para o futuro
Nós somos uma Ordem religiosa, em meio a seis Ordens de cônegos regulares, entre as quais a confederação agostiniana conta oito congregações. E que dizer das muitas ordens religiosas femininas (o próprio Espírito não sabe quantas são!)? Nós somos uma Ordem entre 39 Ordens, formamos uma comunidade religiosa, entre mais ou menos 850 “institutos de vida consagrada, e sociedades de vida apostólica”. Isto já relativiza toda aspiração a particularidades e exclusividades.
Em meio à paisagem da vida religiosa tão vasta, e de muitas cores, nós somos uma Ordem pequena, modesta, ainda que, universalmente estendida e geralmente colocada no topo da hierarquia das Ordens religiosas, antes dos monges, dos mendicantes, e do clero regular (como os jesuitas). Por que razão, um jovem entraria precisamente numa comunidade premonstratense, ao ver essa competência colossal e esse ‘mercado de possibilidades’ inaudito? Um irmão nosso se atreveu a dizer que ele não aconselharia a um jovem, entrar ‘em nossa empresa’. Onde se fale assim, provavelmente não será possível que alguém entre. Sem dúvida, que é que advoga em nosso favor e em favor de nossa forma de vida canonical, no começo do terceiro milênio?
Como resposta se podem dar somente umas palavras lapidais, que atualmente são plantadas também na teologia da vida religiosa:
3.3.1 Ampliadores de horizonte
No mundo de língua alemã, o bispo Joaquim Warnke é considerado como um dos mais famosos pregadores, que geralmente usa uma linguagem original, e que só por sua linguagem já é capaz de clarificar um pouco muitas situações turvas.
Segundo sua opinião, necessitaríamos de uma certa elasticidade espiritual, em meio dos múltiplos desafios de nosso tempo, pelo menos se quisermos guardar realmente nossa vigilância espiritual. Necessitaríamos de uma certa transparência de vida, e teríamos que ser algo como ampliadores de horizonte. Nossa forma de vida, pode abrir o horizonte em vários sentidos. Como vivemos em uma Ordem universal, nossa reflexão irá obrigatoriamente além dos limites de nossa igreja local, tendo em perspectiva, a Igreja universal. Temos que abrir-nos mental e afetivamente, de modo católico-universal, ultrapassando os limites.
3.3.2 Sinais de contradição
De muitas maneiras, o Papa João Paulo II se dirigiu aos religiosos, convidando-os para ser testemunhas acreditáveis da mensagem cristã, em meio a uma sociedade com profundas mudanças sociais e culturais. No dia mundial dos religiosos, em 2 de fevereiro 2001, o Papa pediu aos religiosos, que fossem no mundo atual, um sinal de contradição. A Igreja espera dos religiosos, quer dizer de nós, que esse serviço não seja abandonado, para que Cristo não seja reduzido a uma figura histórica, ou a um ideal abstrato, mas sim, alguém que se faz presente em pessoas vivas, e a quem seguimos sem concessões.
Sem dúvida, considerando nossas comunidades, damos mais a impressão de ser pequenos burgueses, com um estilo de vida relativamente adaptado. Parece que passou o tempo da reforma do movimento canonical, tal como existiu no século XII, e como o viveu São Norberto.
Frente à Igreja estabelecida, comunidades bastante jovens e muitos movimentos, dão hoje a impressão de formar uma alternativa interessante, por uma maior radicalidade, por estar menos dispostos a aceitar concessões, por uma maior severidade. A grande afluência é chamativa. Porém, de fato, isso é o que se passa sempre com movimentos que estão apenas começando; no tempo de Norberto e de Bernardo, se passou o mesmo. Porém, esse desafio de ser um sinal de contradição, vale para todos os religiosos, jovens e anciãos, e vale também para todos os institutos de vida consagrada, seculares ou iniciantes.
Em nossa forma de vida, vejo claramente sinais que se contrapõem à corrente da época atual, pós-moderna, ou que lhe são contrárias. Parcialmente, isto já foi tratado mais acima.
No passado, nossos votos foram considerados muitas vezes como promessas de renúncias, como promessas de desistências, como restrições: desiste-se da propriedade, da experiência sexual, e da autodeterminação existencial.
Algo mais diferenciado, é a visão que explica os votos como abandonos: o abandono da propriedade (eu abandono a preocupação de assegurar materialmente minha existência); o abandono do poder (eu abandono de autodeterminar minha vida); o abandono da sexualidade (eu abandono de reproduzir-me). Não se nega o anseio humano fundamental de ter um nome e de ser reconhecido, de poder e de autonomia, de ter um lugar, de ter segurança e proteção; porém, esse anseio é relativizado.
Em contraposição, o abade Ulrik Geniets prefere falar de ‘votos de consagração’. Então, os votos têm mais o sentido de entrega, de disponibilidade, de consagração: a pobreza é o voto das mãos abertas; a obediência é o voto dos ouvidos abertos; e a castidade é o voto do coração aberto. Sem dúvida, também dentro dessa visão, restam muitos desafios e limitações, porém, a perspectiva é distinta.
Um vínculo para a vida
Os votos são um vínculo para a vida. Isso contradiz a atual atitude na vida, de tentar reter todas as oportunidades enquanto seja possível, sem compromisso, para que todas as opções fiquem abertas. Os que aderem à sociedade de diversão e entretenimento, consideram um tal compromisso para a vida como anacrônico, estúpido, e ainda desonesto: Como poderia eu saber o que haverá amanhã, e o que serei então? Se o anseio de estabilidade, de proteção familiar, e de fidelidade é grande, o grupo dos decididos que destinam e comprometem sua vida definitivamente, se vê cada vez mais reduzido. O vínculo e a fidelidade já não são considerados como valores, mas sim como estorvos. Como religiosos, contraímos um compromisso frente a uma comunidade, por nossa palavra, por nosso sim; e ao fazer isso, contraímos um compromisso frente a Deus e com Ele.
Viver em comunidade
Nossa vida está direcionada para a comunidade, e pertence à comunidade. São precisamente os votos que possibilitam, que exigem e que garantem essa forma de vida comunitária. Frente à tendência crescente de anonimato e isolamento, de individualismo e individualização, de separação, de desenvolvimento de si próprio, e de vida solteira desejada, nós somos direcionados à comunhão, à comunidade e à vida comum. Isso contradiz a evolução atual da sociedade que desvaloriza a família e menospreza a fidelidade. Nós vivemos juntos, construindo, muitas vezes com dificuldade, uma comunidade de vida, com jovens e mais velhos, com tipos muito distintos, tendo os mais diversos temperamentos, e com diferentes níveis de formação. Nossas Constituições chegam até a caracterizar a «communio» como o apostolado principal, mais importante que todo trabalho pastoral. “Nosso ideal apostólico fundamental seja promover a união em Cristo para dentro e para fora” (Constit. n° 68). O «primum propter quod» «a primeira razão de ser» de nossa vida comunitária, não é senão esta : “unanimes habitetis in domo et sit vobis anima una et cor unum in Deum”, ou seja, “vivendo em comunidade, deveis viver unânimes, existindo entre vós uma só alma e um só coração, na caminhada para Deus.” (Regra, I, 2)
Stabilitas in loco (a estabilidade)
Muita coisa mudou para mim nos últimos anos. Durante 40 anos vivi no mosteiro de meu noviciado, e sempre vivi ali, fora o período dos estudos. Minha abadia de Windberg foi sempre minha casa, meu lugar, meu ambiente familiar, meu lugar de trabalho, meu espaço vital. Devo tudo a esse espaço vital, a essa comunidade e a esses irmãos. Mudar-me para Roma, depois de 40 anos, e sentir-me como em minha casa, significa para mim um grande desafio. Ficam sempre os 40 anos vividos em ‘stabilitas’, que me formaram e apoiaram. Essa abadia foi minha terra de confiança, quando, ao redor de mim, se desfaziam muitas vezes as relações e os vínculos, ou quando se perdia o lugar e o sentimento de estar em casa. Essa abadia foi meu amparo, enquanto que tantos homens se viam obrigados a mudar-se e a mudar de lugar de trabalho, por motivos profissionais ou outros, enquanto que hoje, as atividades econômicas impõem sem piedade exigências muito elevadas, e apresentam essa ‘mobilidade’ como libertadora. Doía-me, realmente, quando um irmão me dizia, durante uma visita, que no fundo, ele havia ficado como um homem sem lugar, que ainda, em seu mosteiro, não se tinha sentido realmente em sua casa. É o mesmo irmão que tampouco aconselharia a um jovem de entrar em seu mosteiro.
Nós apontamos à estabilidade, no lugar da mobilidade; construímos comunidade, no lugar do isolamento e da solidão; e esperamos fidelidade para toda a vida, no lugar de uma vida desligada e arbitrária.
3.3.3 “a tenda do encontro”
Resta ainda um ponto por expor. Se voltarmos uma vez a olhar a nossos Pais, a Santo Agostinho, como aquele que nos deu a regra, e a São Norberto, nosso fundador, descobriremos que os dois, foram homens de comunidade, que construíram sua comunidade. Santo Agostinho, um gênio da amizade, não podia imaginar a vida sem amigos e sem comunidade. Buscava o encontro e o diálogo, construía e promovia a comunidade, deu normas e regras para “uma vida regular”. São Norberto - que se dirigiu a tanta gente, para leva-la ao encontro com o Senhor, e a comprometer-se como comunidade que caminha para Deus (“in Deum”) - voltou a meditar as idéias de Santo Agostinho, para dar à sua nova comunidade um fundamento sólido. Essa inspiração de nossos dois Pais, nos convida a entrar sempre de novo na “Tenda do encontro” (Êxodo 33,7), para que nossa aspiração seja fecunda. Em sua evolução, a vida religiosa se afastou cada vez mais do distanciamento, do isolamento, do desprezo do mundo e da fuga da realidade, para dialogar, compartilhar, comunicar e entrar em interação.
Novas formas de relacionar-se - a internet, por exemplo, sem canoniza-la - se multiplicam. Aumentam-se os encontros entre homens e mulheres, entre religiosos e leigos, entre culturas e gerações, entre religiosos e pobres, entre os fiéis e os que não crêem. O encontro com a Mãe Terra enriquece muito aos religiosos: a dimensão ecológica dá um impulso importante à nossa missão e espiritualidade. Também se dão encontros entre Ordens e Congregações, sociedades de vida apostólica e movimentos novos, entre religiosos e diocesanos…
O dom da comunidade (‘communio’) como espaço vital e ancoradouro, nos faz flexíveis, fortes e de muita imaginação, para ir até os homens, e especialmente para encontrar de maneira aberta, sincera e cordial aos que buscam, aos inquietos, aos inconstantes, aos inseguros e aos ansiosos. Claro que a sociedade na qual vivemos, com suas inquietações e problemas, com suas angústias e preocupações, exerce influência sobre nós também. A realidade que nos rodeia nos desafia; porém ela não pode destruir nossa esperança. Este tempo que é o nosso, é também o tempo do Senhor da Aliança, nosso Deus que nos acompanha, Ele que sempre é maior, porque seus dons ultrapassam nossas esperanças. O encontro com Ele (‘contemplatio’) faz crescer nosso ânimo, nossa força e paixão, para buscar e possibilitar o encontro com os homens (‘actio’) para construí-lo e celebra-lo sempre de novo na pastoral.
Quisera terminar com uma oração a São Bernardo, um contemporâneo de nosso Pai Norberto: suas Ordens transformaram e mudaram completamente o século XII. Os dois eram grandes reformadores e pregadores, defensores apaixonados da Igreja, lutadores iluminados pela renovação da Igreja, e o aprofundamento da fé, fundadores e pais espirituais, homens que davam impulsos e sinais de esperança, com dons místicos, figuras proféticas. Que eles dêem fecundidade à nossa reflexão, que acompanhem nossa busca, e fortifiquem nosso anseio por sua intercessão.
Bernardo,
monge ferido pelo Amor, ardente, desmedido,
entusiasmado e entusiasmando,
falando humildemente, de coração a coração,
roga por nós ao Senhor Jesus Cristo
que adoraste com amor íntimo da cruz,
para que nós cheguemos a ser amantes e ardorosos,
abertos à Boa Nova de nosso Senhor.
Amém.