Aliança Norbertina

Côn. Roney Soares de Souza O. Praem. 30/04/11

A Economia do Reino de Deus

Introdução

A Economia do Reino é um exemplo claro de um passo além dos métodos convencionais de exegese bíblica. Fundamentando-se em estudos recentes sobre o mundo social do Novo Testamento, e ao acesso a esse mundo oferecido pela antropologia cultural e social, nos guiaremos através do evangelho de Lucas como peregrinos numa terra estranha, mas fascinante.

Começando pela enigmática descrição dos fariseus em Lucas como “amigos do dinheiro”, Lucas 16,14, mostram que este epíteto frequentemente mal compreendido e potencializado anti-semita deve ser visto sobre o pano de fundo dos conflitos sociais e das relações econômicas do evangelho de Lucas.
O reconhecimento de que na antiguidade a economia não é uma instituição à parte, e está entranhada no rico tecido da vida social, incluindo relações de reciprocidade numa aldeia e estruturas de clientela entre a elite governante, é fundamental para a sua apresentação. Um motivo-chave ao longo de todo este estudo é a “economia moral do camponês” descrita como os valores econômicos de um grupo desprivilegiado, valores esses que o evangelho de Lucas afirma. O evangelho de Lucas surge com cativante frescor. O evangelista nos leva compreender por trás dos acontecimentos e das práticas, e demonstra aqui que a polêmica descrição que faz dos fariseus é menos uma descrição histórica do que um desafio a todo sistema construído sobre estruturas restritivas de poder. Os cristãos que atualmente se comprometem com o Evangelho de Lucas podem ver como “amigos do dinheiro”.
Portanto, esta abertura deve ser proposta, no nosso “Mundo Social” contemporâneo e até o moderno e pós-moderno, com seus grandes abismos entre ricos e pobres e seus desafios econômicos largamente difundidos. O presente trabalho oferece um desafio característico, mostrando como é diferente o contexto das afirmações de Lucas sobre os ricos e os pobres e nos alerta contra aplicações fáceis de textos fortes tais como as lamentações pronunciadas sobre os ricos e saciados (Lc 6,24-26) ou a parábola do rico e Lázaro (Lc 16,19-31). Ao mesmo tempo, ao “desemaranhar” a palavra simbólica e os valores do Evangelho de Lucas, ele o ajuda a se voltar para os valores e símbolos que formam a rede de relações econômicas e sociais contemporâneas e a confrontá-lo.

1 A economia do reino: as relações econômicas no evangelho de Lucas
davici1.1 A economia antiga e a interação social

A afirmação de Lucas de que os fariseus eram “amigos do dinheiro”, bem como suas outras afirmações a respeito de dinheiro e bens, não são expressões isoladas. Pelo contrário, constituem parte integrante de seu evangelho, e parte de um padrão mais amplo de relações sociais, morais e cosmológicas que constituem a sociedade que ele descreve. Como conseguiremos ter acesso a informações referentes ao sistema econômico de Lucas? Uma listagem de informações referentes a dinheiro, ocupações, padrões de gastos, compra e venda não nos diz o que ela significa. A informação precisa ser inserida numa estrutura que explique o seu significado. Não é valido usarmos como modelo a nossa sociedade atual, como inconscientemente somos propensos a fazer. A sociedade de Lucas era não-industrializada e desprovida de classe média, e nela a própria “economia” era um fator totalmente diferente. Necessitamos, portanto, de uma estrutura, de um modelo adequado à descrição que Lucas faz da sociedade palestinense, vale dizer, de uma sociedade agrária no interior do mundo helenístico na porção oriental do Império Romano do século I da era cristã.

1.2 A economia antiga inserida na vida social

A descrição que Lucas faz dos fariseus como “amigo do dinheiro” nos sugere estudarmos a posição dos fariseus na narrativa de Lucas da perspectiva do papel que eles desempenham na economia. Para tanto, é necessário entendermos o papel da economia nas sociedades antigas. Halvor Moxnes entende que;

Toda descrição da economia antiga de partir do fato de que ela estava baseada na agricultura. A agricultura não era apenas mais um setor da economia; constituía a própria base dessa economia. Este fato contesta não só os nossos modelos econômicos comuns, mas também os modelos políticos, econômicos e culturais .

Numa economia agrária, por exemplo, não é pertinente falar no contraste entre “urbano” e “rural”, em termos de “indústria” versus “agrícola”. Na antiguidade, quase todas as cidades dependiam da produção agrícola. Eram cidades “pré-industriais”, as moradias dos ricos proprietários de terras, que viviam das rendas de seus latifundiários, e de poderes centrais, como reis e sacerdotes que extorquiam tributos da produção agrícola das terras próximas.

1.3 O que é uma economia inserida?

Nenhuma economia está totalmente separada das estruturas sociais, políticas e culturais de uma dada sociedade. Isso se aplica também ás sociedades modernas, onde diferenças culturais podem explicar diferenças no desenvolvimento econômico, por exemplo, nos Estados Unidos, no Japão e na América Latina. As posições sociais e políticas podem provocar restrições no setor econômico. O valor atribuído ao trabalho não decorre apenas dos fatores econômicos: pode ser o resultado de uma decisão política da sociedade. Há uma conscientização crescente de que as economias das nossas sociedades estão inseridas num contexto cultural. Moxnes afirma que;

Embora as economias modernas sejam de certa forma culturalmente dependentes, ainda constituem um setor social independente, e em muitos casos exercem uma influência controlada sobre outros setores. No caso das empresas multinacionais e da produção de armas, a economia pode assumir a forma de um departamento isolado, com linguagem, estrutura e regras de poder próprias. Há, pois, uma diferença real entre as economias antigas e modernas .

Na antiguidade, a economia nunca era setor da sociedade, instituição separada, com regras próprias. Era inserida na sociedade e nas suas estruturas de poder. A estrutura de poder governava os sistemas de produção e intercâmbio, que, portanto, não funcionavam de acordo com a economia de “livre mercado”. Consequentemente, essa organização tem de ser dentro da organização social como um todo.
A unidade econômica dominante era a família ampliada, com uma propriedade e uma economia de família. A atividade econômica era apenas uma das atividades da família, subordinada, portanto, a seus objetivos específicos. As elites baseavam o seu poder na política e no status, em vez de na economia. O objetivo específico da economia de família era permitir que a elite mantivesse o status, por meio de um “consumo ostensivo”. Era o que ocorria nos níveis mais elevados da sociedade, sendo igualmente válido para o imperador romano. A economia das elites estava voltada para a satisfação de suas necessidades; necessidades essas que por sua vez não eram baseadas em “considerações econômicas”, no sentido moderno do termo. Na maioria das vezes, eram políticas e militares, mais do que econômicas.
Comparada à mentalidade moderna, era um modo de pensar tolamente diferente, como muito pouco incentivo à mudança e a experimentos, Moxnes diz que:

O progresso técnico, o crescimento econômico, a produtividade, até mesmo a eficiência, não foram metas significativas desde o início dos tempos. Embora a agricultura fosse a principal fonte de renda, não havia incentivo ao aumento do lucro por meio de novos meios de produção. Em vez disso, havia competição para se aumentar a riqueza por meio do controle de mais terras. Era uma economia baseada em exploração e não no crescimento, e, portanto, a mentalidade dominante estava voltada para a aquisição, e não para a produção .

Essa era a economia moral do proprietário de terras na antiguidade, e, como resultado, havia a tendência a um aumento constante do tamanho dos latifundiários ao longo de toda a antiguidade.

imagesCA190MS42 A intenção econômica da Palestina de Lucas

Lucas via a sociedade, que descrevia de diversas perspectivas. De maneira típica da literatura helenística, relacionou eventos de sua própria narrativa ao contexto mais amplo do império romano. Ao longo de todo o Evangelho e dos Atos, ele vincula a sua narrativa a acontecimentos históricos ou a personagens históricos, especialmente a imperadores e governadores romanos, reis, príncipes e sumo sacerdotes judeus. Este era um modo de descrever o movimento cristão nascente como acontecimento de importância mundial.
O centro da atenção de Lucas, porém, é determinado pela história de Jesus e dos seus movimentos. Assim, em Lucas 1 – 2 o cenário de Jerusalém com o templo tem vínculos com os cenários das aldeias de Belém e Nazaré. A partir de Lucas 3 até 19,27, predomina o cenário das aldeias,começando com as atividades de Jesus na Galiléia e com a narrativa de suas viagens pela Samaria e pela Judéia como a parte central. Por fim, de 19,27 até o final do Evangelho no capitulo 24 o foco de interesse é Jerusalém, com suas autoridades romanas e judaicas. Estes dois grandes cenários, a periferia da aldeia e a cidade central, em conjunto, correspondem às diversas formas de interação econômica: o intercambio recíproco ocorre principalmente no âmbito da aldeia; a redistribuição e os relacionamentos desiguais patrão-clientela estão ligados à cidade central. A discussão da apresentação feita por Lucas será igualmente dividida em duas partes: a aldeia e a cidade de Jerusalém.

2.1 Dinheiro na aldeia de Lucas

O que era dinheiro na aldeia palestina descrita por Lucas, e para que era utilizado? Qual era o dinheiro usado na aldeia descrita por Lucas? A começar pela moeda de menor valor, a menor moeda de cobre mencionada é o lepton (12,59; 21,2) era a menor moeda de cobre cunhada pelos tetrarcas judeus, e valia um oitavo da outra moeda de cobre, o assarions são mencionados como sendo o preço de cinco pardais (12,6). O assarion, por sua vez, valia um sexto do denarion, moeda de prata equivalente à diária de um lavrador. Dois denarii foram a importância paga pelo samaritano ao hospedeiro para que este cuidasse do homem que caíram nas mãos de assaltantes (10,35). Em outra parábola, são mencionadas 500 e 50 denarii como exemplo respectivamente de grande e de pequena dívida respectivamente (7,41-42).
Para resumir nossa descoberta, devemos dizer que a economia de mercado como tal não desempenha papel importante na sociedade descrita por Lucas. Com exceção do exemplo tirado da corte de um príncipe (19,12-27), os objetos de comércio são pequenos ou relacionados com a agricultura local. Assim, nas parábolas, até as somas exageradas são modestas; refletindo uma economia camponesa de escala reduzida.

3 A economia do reino e os desafios dos dias atuais

Um aspecto central da sua proclamação do reino é a apresentação de Jesus como benfeitor, baseada na sua proclamação de 4, 16-19 com fortes implicações da renovação do ano do jubileu. Lucas descreve essa reversão principalmente em termos de relações socioeconômicas no interior da sociedade judaica, as relações entre ricos e pobres, os poderosos e os fracos. Lucas imagina uma reversão que implicava a redistribuição centralizada, forçada, de bens e posses, profeticamente anunciada no Magnificat (1,51-53).
Nossa tentativa de relacionar a visão de Lucas a um possível ambiente social para ele e sua comunidade, precisamos comparar mais de perto o Evangelho e Atos. Um exemplo: os fariseus são vistos de maneira mais favorável nos Atos do que no Evangelho. A economia também é um campo que parece ter outra fundação nos Atos. O grande tema do Evangelho é a vinda de Jesus para pregar o Evangelho aos pobres (4,18). Jesus veio como o benfeitor para o povo de Israel. Nos Atos, a estrutura narrativa é diferente. O roteiro básico é dado pela missão de Jerusalém até Roma. Sua mensagem principal é a proclamação de Jesus como Cristo ressuscitado.
No Evangelho de Lucas, os fariseus são descritos à luz do conflito referente às relações sociais no interior de Israel. A descrição seguia um conhecido modelo de crítica à ganância dos líderes e dos adversários. Crítica semelhante encontra-se em Atos (8,18-24; 19,23-41), mas agora não é dirigida aos fariseus. Questões referentes a dinheiro e relações econômicas e sociais desempenham papéis diferentes no Evangelho e nos Atos, respectivamente. No Evangelho, têm significado estrutural, e, por isso, o estudo do “dinheiro” nos leva ao centro da mensagem evangélica. Nos Atos, funciona mais como um tema de apoio, não como uma chave para toda a história.
Nos Atos, a situação muda, do conflito na Palestina para os contrates entre grupos de fiéis a Cristo e a sociedade que o cerca. Assim, nos primeiros capítulos dos Atos, os fiéis de Jerusalém são descritos como uma comunidade ideal, que tem como uma de suas características principais a redistribuição de recursos aos membros necessitados (2,43-47; 4,32-37; 5,1-11) esta parte dos Atos resume um modelo do sistema moral que prevalecia no Evangelho.
Mesmos motivos comuns ao Evangelho e aos Atos receberam tratamentos diferentes. Dar esmolas é tema típico de Lucas, tanto no Evangelho quanto nos Atos, tema esse que provavelmente foi introduzido no seu material pelo próprio Lucas. É somente no Evangelho, porém, que a prática da esmola é de importância estrutural, descrevendo um relacionamento social. Nos Atos, sua função é diferente: juntamente com a oração, serve como parte de um padrão de característica pertencente ao justo (10,2. 31)
Em suma, existem muitas semelhanças entre os Atos e o Evangelho de Lucas no campo da economia: mulheres atuam como patronos (Lc 8,1-3; At 9,36-43) a esmola é necessária para atender à necessidade das pessoas; a ganância e a avareza são características negativas. Como se trata de características típicas de Lucas, pode, portanto, pensar que surjam do seu ambiente social e seja uma reação a ele. É apenas no evangelho que a relação econômica e social tem importância central para o enredo da narrativa. E mais ainda, é apenas no Evangelho que Lucas desenvolve um sistema de relação econômicas e sociais que chamamos de “economia do reino”, em contraste com aquele da “velha ordem”, com seus governantes opressores e seus maus dirigentes. Nos Atos, a narrativa ressalta a difusão da mensagem, de Jerusalém a Roma.
É relativamente fácil entender as narrativas como exortação à benevolência, e à generosidade para com os pobres. Esse é uma leitura que se pode dar satisfação instantânea às pessoas influentes da sociedade. Muito mais difícil é lê-las como história que dão poder aos pobres, e os libertam dos vínculos da dependência ideológica dos ricos. Tanto na comunidade descrita por Lucas quanto na sociedade atual, as estruturas da cominação e exploração estão atuantes, mas o Evangelho oferece uma libertação e exploração estão atuantes, mas o Evangelho oferece uma libertação da visão de mundo que as legitima.
Portanto, a mensagem do Evangelho nos obriga a abdicar do retrato dos fariseus criado por Lucas. Nestes últimos anos, os diálogos judaico-cristãos vêm alterando os cristãos para a necessidade de autocrítica e mudança nas nossas relações com os judeus. Essa questão também diz respeito às atitudes para com todos, especialmente aqueles que são estrangeiros para nós, “os outros”, que nos parecem estranhos e repreensíveis. Como indivíduos, classes e nações, tendemos a dividir as pessoas em amigos, semelhantes a nós, e estranhos, possíveis ameaças. Essa é a maneira de nos fecharmos para os outros e também de negar o amor de Deus para com todos. Romper essas divisões – mentais, sociais e econômicas – eis o verdadeiro desafio para nossas vidas, individuais e comunitárias.

luminous314 Considerações finais

O estudo feito teve como objetivo oferecer um retrato da sociedade palestina do tempo de Jesus retratada no evangelho de Lucas. Nossa intenção não foi voltada nem para o Jesus histórico, nem para a situação histórica de Lucas, mas sim para o mundo social e econômico da narrativa evangélica. Lucas dirigiu o seu evangelho a comunidade do seu tempo, a fim de contar a vida de Jesus (1,1-4) e para exortar e aconselhar sobre a vida cristã. Entretanto, seus leitores não são postos diante de afirmações dogmáticas isoladas ou exortações morais.
Em vez disso, são atraídos ao universo narrativo do evangelho, e quase tornam parte de histórias a respeito de Jesus e seus seguidores e oponentes. Atualmente, enquanto leitores de Lucas podemos compartilhar da mesma experiência. Para “entrarmos” na narrativa de Lucas, entretanto, precisamos saber mais sobre a maneira como ele estrutura o retrato da sociedade palestinense no tempo de Jesus.
A questão como “ricos e pobres” e dar esmolas são de importância central no evangelho de Lucas. Foram analisados não como frases separadas, soltas, mas como partes integrantes do evangelho de Lucas. O tema do trabalho “A economia do reino: as relações econômicas no evangelho de Lucas” indicam o contexto no qual a posição de Lucas quanto à intenção social adquire sentido. Portanto, nossa porta de entrada para o universo de relações econômicas e sociais de Lucas foi a sua descrição dos fariseus, ou mais especificamente, sua afirmação, em 16,14, de que eles eram amigos do dinheiro. Está foi apenas uma de série de afirmações negativas sobre os fariseus que causa sério problema de interpretação. Muitos dos diálogos recentes entre judeus e cristãos foram a preocupação de corrigir o retrato negativo que o Novo Testamento em geral e os evangelhos em particular fizeram dos fariseus. Na maioria das vezes as atitudes religiosas dos fariseus foram caluniadas, mas a acusação de que eram amigos do dinheiro se insere também numa longa série de acusações de cobiça e avareza feita contra os judeus.


5 Referência Bibliográfica

BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. Tradução das introduções e notas de La Sainte Bible, edições de 1973, publicada sob a direção da “École Biblique de Jerusalém”. São Paulo, Paulus, 1995.

CASALEGNO, Alberto. Lucas: a caminho com Jesus Missionário. São Paulo: Loyola, 2003.

GEORGE, Augustin. Leitura do Evangelho segundo Lucas. 3.ed. São Paulo: Paulinas, 1982. (col. Cadernos Bíblicos, 13).

MOXNES, Halvor. A economia do reino e os desafios dos dias atuais, In. A economia do reino: conflito social e relações econômicas no Evangelho de Lucas. Trad. Thereza Cristina F. Stummer. São Paulo: Paulus, 1995. (Bíblia e sociologia). p. 145.

MOXNES, Halvor. A Economia do Reino: As relações econômicas no Evangelho de Lucas, In. A economia do reino: conflito social e relações econômicas no Evangelho de Lucas. Trad. Thereza Cristina F. Stummer. São Paulo: Paulus, 1995. (Bíblia e sociologia). p. 36.

MOXNES, Halvor. A economia do Reino: conflito social e relações econômicas no Evangelho de Lucas. Trad. Thereza Cristina F. Stummer. São Paulo: Paulus, 1995. (Bíblia e sociologia).

 
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