
1. Introdução
Durante a audiência por ocasião da septuagésima quinta reunião geral da União dos Superiores Gerais (USG), o Papa Bento XVI falou sobre a vida consagrada na Europa.
Discursou sobre três aspectos da vida religiosa: a busca de Deus, a vida em fraternidade e o elemento missionário. Para nós, premonstratenses, esses três temas podem vincular-se facilmente com as três colunas de nossa espiritualidade: a contemplação, a comunhão e a ação. Assim, o Papa confirma os nossos pontos de gravidade, porém ele coloca acentos pessoais. Isso é o que queremos examinar aqui.
2. Contemplação
2.1 Religiosos como buscadores de Deus
“Buscar a Deus é a vocação de vocês”. Como religiosos, como membros de uma Ordem, somos chamados a buscar a Deus. A nossa atividade principal é buscar a Deus. Investimos nessa atividade as nossas melhores forças. Trata-se do essencial, do definitivo, do que permanece, do imperecível que temos em vista. Há algo de escatológico que caracterizava o começo da vida monástica. Essa busca orienta-se imediatamente para Deus, a quem buscamos, não só na nossa oração e adoração, mas também em nossa vida. Toda nossa existência, com sua pertinácia e atividade, quer orientar-se para Deus. Porém essa busca se concretiza de várias maneiras. Buscamos encontrar a Deus em nossos irmãos e irmãs que nos foram dados e com quem partilhamos a vida. Buscamos encontrar a Deus que se faz presente nas pessoas encontradas no campo de nossas missões pastorais. Buscamos encontrar a Deus que se faz presente nos pobres que foram os primeiros evangelizados (Lc 4, 18). A Ele procuramos na Igreja; nela o Senhor se torna presente quando nos reunimos em nome dEle. O Papa qualifica nossa vida de religiosos como uma busca apaixonada de Deus e um testemunho dEle. Enraizada no Evangelho, a nossa vida renovará suas formas a partir da Palavra de Deus. “A prática diária do Evangelho é o elemento que atribui à vida religiosa beleza e uma força atrativa e, a transforma, diante do mundo, numa alternativa séria.”
2.2 Premonstratenses como buscadores de Deus
Trata-se aqui do lado contemplativo de nossa vida. Enquanto o termo ‘contemplação’ sugere mais a forma e o caminho, a expressão ‘busca de Deus’ indica um conteúdo e o objetivo. Pelo seu batismo, o cristão tem um vínculo ontológico com a Trindade; a nossa vida de religiosos deve manifestar isso. Como diz a Regra de Santo Agostinho, a nossa comunidade premonstratense há de estar ‘em Deus’, caminhando para Deus. Por isso se comparava sempre a vida religiosa com a busca dos Santos Reis. Surpreendidos e atraídos por uma estrela, resolveram-se a segui-la, e ela os levou ao Senhor no presépio. Foram guiados por ela, foram tentados a seguir outros caminhos, consultaram o rei Herodes, aventuraram-se juntos desde o início. Em tudo isso, eles se tornaram um modelo para a vida religiosa: pela fascinação no começo, pondo-se juntos a caminho, pela persistência, apesar das dificuldades e do deserto, pela tentação de seguir outras instruções e ideais, pelo fato de ter encontrado por fim a boa direção e a alegria para sua vida. A sua fidelidade e força de resistência, a sua confiança na estrela foram finalmente recompensadas. “Encontraram o menino com Maria, a sua mãe; então se ajoelharam diante dele e o adoraram” (Mt 2,11). Eles deixaram o seu país, formaram uma comunidade de caminhantes entre os quais houve, sem dúvida, uma solidariedade totalmente nova. Adoram ao que tinham buscado, ao que procuravam, dedicam o mais valioso de seus bens; o que impele esses sábios se torna o caraterístico de sua vida: a busca de Deus.
A iniciativa desse projeto dos sábios vem ‘de cima’ e, a vida inteira deles se torna uma busca. Por isso, o caminhar deles pode servir de chave para a vida consagrada. O nosso caminho começa com um chamado, uma vocação não proveniente de nós mesmos à qual respondemos e, à qual seguimos como uma estrela. Essa vocação nos introduziu numa comunidade de buscadores caminhantes. O Espírito de Cristo nos impele para que, “esvaziando-nos e ultrapassando-nos a nós mesmos, rompamos com nosso egoísmo, e vivamos para Deus e para os irmãos” (Const 1,9).
Nesse caminho, São Norberto nos serve de exemplo, pois a sua vida foi uma busca de Deus . Isso muitas orações dele o expressam. Podemos buscar somente Àquele que já encontramos: Aquele que já nos prendeu e seduziu. Algo tocou o nosso coração, a nossa abertura ao último mistério pessoal e do mundo. Os Reis podem ensinar-nos constância e intensidade na busca. Seguiram a estrela até que parou acima do lugar onde Deus deixou-se encontrar, mas numa forma totalmente distinta da que esperavam ou imaginavam. Deus deixa-se encontrar como menino pequeno e comum, semelhante a qualquer recém-nascido. Chamado para a vida religiosa, o nosso fundador, São Norberto, fez a sua profissão no dia de Natal do ano 1121. Poder-se-ia dizer que fez os seus votos perto do presépio, diante desse menino e, como pregador caminhante, seguiu a estrela durante toda a sua vida, enquanto evangelizava.
3. Comunhão
3.1 O elemento da fraternidade
Na visão do Papa, a fraternidade constitui o segundo elemento fundamental, como foi exposto por João Paulo II na Vita Consecrata, no capítulo intitulado ‘Confessio Trinitatis’. Numa sociedade muito individualista, a vida comunitária fraterna é um elemento profético. Pois a falta de amizade, de confiança e de parceria causa a quebra de muitos vínculos. Certamente, também nas comunidades religiosas se despedaçam relações e se encontram dificuldades para ficar junto e permanecer fiel à vocação, apesar da aspiração e do empenho; para isso se requer, às vezes, ajuda externa. Para encontrar orientações à luz da Escritura, a comunidade deverá esforçar-se de maneira séria e contínua para ser ‘guiada pelo discernimento sobrenatural, que sabe distinguir o que vem do Espírito daquilo que Lhe é contrário’ (Vita Consecrata 73). Se não está vinculada com a Escritura, com a oração, com a reflexão e com o discernimento dos espíritos, “a vida consagrada expõe-se ao perigo de adaptar-se aos critérios do mundo: o individualismo, o consumismo, o materialismo”. Aqui aparece, outra vez, o valor simbólico dessa forma de vida. Onde a vida em comunhão e fraternidade sai bem, ela se torna atrativa, especialmente para pessoas jovens capazes de captar o que é sincero e autêntico. Uma boa comunidade se torna um sinal eloqüente para a sociedade atual.
Os superiores farão toda a diligência para que esse sentimento comunitário se torne habitual entre os irmãos, para pensarem a partir da comunidade e viverem para a comunidade. Lembrar-se-ão que, no que se refere ao governo, à direção e ao planejamento do futuro, uma parte importante da formação espiritual consiste na promoção da comunidade, no fortalecimento da comunicação interna, na intensificação do calor e da veracidade das relações recíprocas.
3.2 Comunidade premonstratense
Nós, premonstratenses, vivemos segundo a Regra de Santo Agostinho, que começa citando o ’Ordo Monasteri’: "Caríssimos irmãos, antes de tudo, amai a Deus e ao próximo". O mandamento duplo do amor a Deus e ao próximo forma o argumento para a tarefa da vida comunitária fraterna. O confrade torna-se o próximo que vive a meu lado e, que encontro todos os dias. A Regra o indica ainda com exatidão com o pensamento introdutório: “Primeiramente, vivendo em comunidade, deveis viver em perfeito acordo, existindo entre vós um só coração e uma só alma em Deus” (I,1). Entrando no mosteiro, encontro confrades que não foram escolhidos por mim; posteriormente entram jovens que não conheço bem. Por sua profissão solene e sua aceitação pelo convento, eles tornam-se membros da Ordem, e confrades. Mas essa fraternidade tem ainda um fundamento mais profundo e teológico, que ultrapassa a sociologia de grupos. Eis como argumenta a carta aos Hebreus: "…todos, tanto Ele (Jesus) como os que são purificados, têm o mesmo Pai. É por isso que Jesus não se envergonha de chamá-los de irmãos, dizendo: ó Deus, eu falarei a respeito de ti aos meus irmãos e, te louvarei na reunião do povo." (Hebr. 2, 11-12). Dessa maneira, a fraternidade está fundada na filiação divina e, todos os batizados em nome do Pai participam da filiação divina. A encarnação é entendida como assemelhação, "em tudo, tornar-se semelhante aos irmãos" (v. 17). O sofrimento e a paixão são entendidos como caminho, pois o Senhor colocou-se totalmente no nosso nível, o nível da irmandade: "Pois tendo Ele mesmo sofrido pela tentação, é capaz de socorrer os que são tentados " ( Hebr. 2,18).
Assim, a encarnação e a salvação são atos de uma solidariedade completa com os irmãos, tendo em comum a carne e o sangue, de maneira que Ele "tomou parte na natureza humana deles, a fim de destruir, por meio de sua morte, o dominador da morte” (Hebr. 2,14). Cristo tornou-se o nosso irmão, enquanto pertencemos ao mesmo Pai e o reconhecemos. De maneira particular, a comunidade religiosa forma uma fraternidade que participa da mesma vocação divina.
Esse vínculo profundo com Cristo como irmão tem como efeito uma vida comunitária fraterna, pois a fórmula antiga diz "agere sequitur esse": o agir é efeito do ser. A carta aos Efésios e outras cartas o recomendam com freqüência: "com toda humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros com amor, procurando conservar a unidade do Espírito, pelo vínculo da paz. Um só Corpo e um só Espírito", uma alma e um só coração em direção a Deus.
4. Missão
4.1 Missão como elemento essencial
Segundo o Papa, a missão faz parte da forma de ser da Igreja e da vida consagrada. "Faz parte de sua identidade". A missão incita os religiosos a levar o evangelho a todos, sem limites. Apoiada por uma experiência forte de Deus, uma formação sólida e uma vida fraterna em comunidade, a missão é uma chave que leva a compreender a vida consagrada e a vivê-la novamente. A missão é o movimento que leva a assumir com fidelidade criativa a exigência da nova evangelização. O Papa Bento utiliza a imagem do areópago, onde São Paulo anunciou o Deus ’desconhecido’, para nos tornarmos ativos, e buscarmos as arenas atuais onde se trocam as opiniões, para utilizarmos as formas modernas de comunicação.
Por certo, a vida religiosa tem um caráter simbólico e, a forma de vida autêntica de seus membros tem um valor expressivo. Mas, além disso, os religiosos estão chamados a renovar o seu impulso missionário e dedicar-se novamente à tarefa da evangelização. Sem dúvida, o Papa queria destacar esse elemento essencial para introduzir uma nova ofensiva de evangelização. Uma ofensiva mundial, porém especialmente com vista à Europa.
Com esse fim, o Papa criou o Conselho Pontifício para a nova evangelização. No passado, houve sempre religiosos, particularmente das ordens missionárias, que se levantaram para levar a Boa Nova até os confins da terra.
É evidente que a transmissão da fé de uma geração para a seguinte, não se realiza automaticamente, apoiada só pelas estruturas de uma igreja popular. A fé parece diminuir, a prática da vida religiosa decresce. Fala-se da Europa como terra de missão. Essa situação é evidenciada pela presença de missionários vindos dos antigos países de missão, da Índia, da Ásia e da África. Começa um novo movimento. Os religiosos devem considerar o carisma de sua fundação, e a sua participação na nova ofensiva da fé.
No capítulo intitulado "Todos os batizados são responsáveis pela evangelização", de seu escrito "Verbum Domini", o Papa Bento se dirige também aos religiosos, dizendo: "No conjunto da história da Igreja, a vida consagrada se distingue pela capacidade para assumir a missão de anunciar e pregar a Palavra de Deus, aceitando a ’missio ad gentes’ em circunstâncias difíceis, indo para as novas fronteiras da evangelização, entrando corajosamente em novos caminhos, abrindo-se a novas exigências para o anúncio eficaz da Palavra de Deus". E o Papa cita, então, a instrução da Congregação para os Institutos de Vida Religiosa e as Comunidades de Vida Apostólica: "Um novo começo em Cristo. Um novo movimento da vida consagrada no terceiro milênio".
4.2 A "herança missionária" de São Norberto
Após a sua conversão, no ano 1115, Norberto se dedicou progressivamente a anunciar o Evangelho, pregando primeiro no seu próprio ambiente, e depois, como pregador itinerante. Queria comunicar aos outros a sua nova descoberta de fé e conduzi-los ao Senhor. No começo da primavera saia muitas vezes de Prémontré e percorria o país missionando e pacificando pessoas e grupos inimigos. Realmente, pode-se falar aqui, de uma missão de paz, pois estava convicto de que a paz com Deus condiciona e possibilita a paz entre homens.
Assim, pelas suas missões, Norberto viajou através da metade da Europa. Após a sua morte precoce, em 1134, os seus confrades das fundações no oriente do império continuaram a sua tarefa missionária. Aí, e em outras iniciativas, a expansão da Ordem coincidia com o empenho missionário.
Após a grande expansão da Ordem durante os séculos doze e treze, um novo movimento missionário ocorreu, especialmente durante os séculos dezenove e vinte, a Ordem entrou na América do Sul e do Norte, na África e na Índia. Missionários irlandeses foram até à Austrália.
Assim, a Ordem está presente em todos os continentes. Hoje presenciamos na Ordem um movimento contrário. Irmãos africanos foram para Europa, irmãos saíram da Índia para a Europa, a África e a Austrália, irmãos brasileiros vêm para o velho continente europeu, com o intuito de trabalhar na pastoral missionária. Certamente, há também motivos e necessidades financeiros. Porém, os confrades vêm como pastores e sacerdotes, como missionários e evangelizadores, vivendo a vida comunitária na sua região atual de trabalho, e querendo construir a comunidade cristã. Isso corresponde ao projeto que Norberto perseguia, quando fundava comunidades e forçava a criação de mosteiros que, por natureza, iam assumir tarefas pastorais e missionárias.
É conveniente recordar aqui, o que as Constituições afirmam: “A comunhão de nossas comunidades deve extrapolar-se pela caridade que se estende a todos os homens.” (n° 68). Essa formulação é agostiniana, mas ela expressa o ideal norbertino de sair sempre de novo, e levar ao povo a Boa Nova. Atualmente as comunidades jovens das antigas missões estão realizando isso melhor que as comunidades na Europa, confrontadas parcialmente com a idade avançada de seus membros. Mas existem também exemplos novos de solidariedade e de relações progressivas entre Continentes. No passado, as congregações missionárias organizavam um serviço de assistência material para as casas do mundo então chamado de terceiro; atualmente as casas se tornam parceiras, organizam-se campanhas de solidariedade para projetos de outras comunidades, há contribuições regulares para promover ou assegurar atividades. Nasceu a consciência de apoiar o empenho de irmãos, e de outras casas, de promover a ‘pastoral missionária’.
Neste aspecto, a comunicação mútua poderia tornar-se melhor. O contacto pessoal e a visita das outras casas continua sendo o melhor caminho para promover uma responsabilidade comum em nossa Ordem e, para que cada forma de ajuda oferecida chegue realmente a seu destino.
5. "Prontos para toda obra boa"
Pretende-se que essa dica venha de São Norberto, o que não é provado! Uma dica com freqüência citada ou propagada. Finalmente, ela não foi mal selecionada, enquanto é uma formulação aberta, porque não determina uma certa forma de pastoral ou espiritualidade. A ’boa obra’ pode ser a resposta encontrada por uma comunidade que toma em conta os sinais dos tempos e dá importância às preocupações do povo. A resposta de nossos irmãos na Índia foi uma grande ofensiva no terreno social e educativo. Não há paróquia sem sua própria escola e, geralmente, a colaboração entre o pároco e o direitor é grande. Cada paróquia tem numerosos projetos sociais, grupos de trabalho e iniciativas para assistir os fiéis, em suas necessidades diárias. No contexto europeu, as forças se investem principalmente nas formas pastorais extraordinárias e, na pastoral paroquial onde se dão as maiores necessidades.
Na abadia de Jamtara encontrei uma oração a São Norberto, que se reza todos os dias. Ela diz assim:
Aos 14 de janeiro de 2011 no dia da festa de São Godofredo.
+ Dom Tomás Handgrätinger abade geral