Do dia 03 ao dia 07 de outubro de 2005, estive com Dom Luiz Flávio Cappio, meu bispo, em Cabrobó - PE, solidarizando-me com ele, assim como todo povo cristão brasileiro. Para mim, foram dias de profunda espiritualidade. Foi o melhor retiro espiritual que já fiz, tendo como pregadores ou assessores o povo simples, mas cheio de fé do sertão sofrido e explorado nordestino, mais Frei Luiz. Lá foi, como dizem uma “loucura”. O povo acorreu para se solidarizar-se com ele, ve-lo, tocá-lo, pedir-lhe a benção ou simplesmente estar com ele, junto dele nestes dias de greve de fome ele se propôs, doando sua vida pela vida deste povo tão sofrido e explorado nordestino.
Enquanto os cartolas, coronéis e os políticos safados fazem tudo para sugar este tão sofrido povo nordestino, frei Luiz teve a coragem e a dignidade de se doar… Nada mais normal e coerente para uma pessoa que já vive 40 anos às margens do São Francisco, entregar a sua vida para que nós prestemos atenção ao absurdo que está para acontece, para que prestemos atenção à tão contestada decisão do governo federal de levar a cabo o projeto faraônico da transposição, mesmo contra argumentos tão sérios. Frei Luiz, uma grande alma, um mahatman, como diria o povo indiano, um verdadeiro filho de Gandhi.
Quando soube da noticia fiquei perplexo. Resolvi dar um chego lá para dar meu axé e meu abraço a meu bispo que me ordenou presbítero. Também para lá correu a imprensa local, regional, nacional e internacional. O outro lado da “loucura”. Paparazzos por todos os lados, tirando fotos e mais fotos e querendo a todo o momento uma fala de Frei Luiz. E coube a nós, seus familiares e mais chegados, coordenar e organizar todo aquele caos. Estafante, cansativo, mas mui edificante. A fé simples do povo muito nos comove e nos questiona. É um convite permanente para a nossa conversão, mudança de mentalidade, rever todos os nossos valores, princípios e preconceitos. Como padre de Dom Luiz, bispo de Barra, no médio São Francisco, conheço-o já há uns dez anos e nestes cinco dias que lá permaneci não vi alguma alteração na pessoa de Dom Luiz: sempre educado, auto-controlado, simpático, paciente, bem-humorado, carinhoso e caridoso com o povo, os jornalistas e políticos. Sempre atencioso com todos e sempre atento a tudo. “Gente fina” como diz o povo. Alguém do povo disse: “já estamos acompanhando dez dias o frei em greve de fome, sem comer nada, só bebendo água e a gente percebe que cada dia que passa parece que ele está mais forte e decidido em seu propósito de dar sua vida por nós”. De fato, era o frei que nos consolava, nos animava, do que nós a ele. Uma grande alma com certeza! Outro aspecto do frei Luiz nestes dias: sempre de bom humor e muito lúcido em suas falas e pronunciamentos. Forma onze dias de graças para nós e com certeza onze dias de sofrimento para o frei e mesmo assim, tudo correu na Santa Paz de Deus, e não houve sequer nestes onze dias qualquer tumulto, briga ou confusão no lugar. Sem a presença de policiais, o povo sempre foi muito educado, respeitoso e acolhedor, revelando assim sua verdadeira essência e personalidade. O sertanejo antes de tudo é um acolhedor do irmão, portanto, antes de tudo, é cristão. Graças a Deus e louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Mãe Maria Santíssima. Foi bonito, cada qual fez sua parte: o frei, o povo, a imprensa. Um frei tão frágil, num gesto de desespero, fez o que os coronéis e os políticos não conseguiram ou nunca quiseram: conscientizar um pouco o povo de seus direitos e deveres, defender a vida se preciso com a sua própria vida. Lembrá-los que eles também fazem parte da grande nação chamada Brasil.
Foram dez dias de fortes emoções: todos preocupados com a saúde do frei Luiz. Com o passar dos dias veio o stress para a grande maioria, mas sempre acalmada e consolada pela serenidade e paz de frei Luiz, muito lúcido de seu propósito. Quando tudo terminou e ao se despedir de Dom Luiz, uma repórter da Rede Globo disse muito comovida ao frei: “Saio diferente e bem melhor daqui. Frei Luiz muito obrigado. O senhor é um homem de força espiritual fantástica, admirável. Boa sorte em tua luta”. Aliás, nossa luta, o que frei Luiz nestes onze dias nos deixou bem claro em suas falas, pronunciamentos e reportagens. Sei que cada um que lá esteve e acompanhou os fatos ao vivo, tem com certeza um fato, um caso curioso e edificante para contar, e cabe ao pesquisador, historiador recolher estas falas. Com certeza dará um bom livro ou uma tese de mestrado ou doutorado. É uma fonte inesgotável da mais pura, fina e cristalina água, pronta para transportá-la aos livros e integrá-la a história nordestina brasileira. Dom Luiz Flávio Cappio pôs em prática aquele refrão de Geraldo Vandré que tanto motivou a turma positiva, utópica e da esperança neste país: “vem vamos embora que esperar não é saber quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. E foi justamente isso que frei Luiz fez: a hora e a vez de Frei Luiz, título para um livro, documentário, filme, música, etc. Obrigado Frei Luiz, orgulho-me por tê-lo como Bispo e Pai. Que o Senhor sempre te abençoe e te guarde. De seu filho Padre José Henrique Guimarães Martins (Galvão), hoje religioso da Ordem dos Cônegos regulares Premonstratense, servindo o Reino de Deus em Itinga, Lauro de Freitas, Bahia.
12 de Outubro de 2005, festa de Nossa Senhora Aparecida.
[1] Cabrobó é um município brasileiro do estado de Pernambuco. Localiza-se a uma latitude 08º30’51" Sul e a uma longitude 39º18’36" Oeste, estando a uma altitude de 325 metros. Sua população estimada em 2004 era de 28 165 habitantes. Possui uma área de 1629,9 km2.
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