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Côn. Godofredo Chantrain O.Praem. 16/12/09

875 anos da fundação da Abadia de Averbode, Bélgica

Em 1896 essa abadia mandou os primeiros religiosos para o Brasil, onde se estabeleram em Pirapora do Bom Jesus, SP administrando o Santuário do Senhor Bom Jesus e iniciando um instituto de ensino para meninos. De lá fundaram em 1901, o Colégio do Espírito Santo em Jaguarão, RGS, assumiram a direção do Colégio São Vicente de Paulo, em 1909, em Petrópolis, RJ e receberam em 1915 a direção do Ginásio Municipal em Jaú, SP. Fundaram em 1930 a paróquia de São José, no Jardim Europa, na periferia de São Paulo e estabeleceram aí a residência de São Norberto.

Em 1953 abriram uma casa em Piracicaba, SP, onde fundaram a paróquia de São Judas Tadeu. Várias paróquias foram confiadas aos cuidados deles no decorrer desses 113 anos. Em 1979 os “Institutos Averbodienses do Brasil” tornaram-se independentes e criou-se a Canonia Jauense, cujo priorado foi elevado em 2000 à dignidade de abadia.

Por ocasião do jubileu dos 875 anos da fundação da Abadia Mãe de Averbode, publicamos aqui a alocução pronunciada por Dom Tomás Handgraetinger, Abade Geral da Ordem, na sessão acadêmica na Abadia de Averbode, aos 14 de agosto de 2009.

Quando o Senhor não constrói a casa…

Caro Abade Jos, reverendíssimos abades, caros confrades da circaria Brabântica e de outras circarias, irmãs e irmãos de outras comunidades religiosas, prezados convidados e amigos da abadia, caros confrades da própria abadia de Averbode.

Averbode celebra durante esse tríduo com diferentes grupos da sociedade seu jubileu de 875 anos de fundação como abadia: um acontecimento memorável e um jubileu impressionante da abadia. Em nosso tempo moderno e muito mutável uma existência de 875 anos de uma abadia já é em si mesmo um fato incomum. A história abrange muitas gerações de confrades, que entraram aqui, viveram neste local, atuaram e morreram. Cada confrade teve que conhecer essa abadia. Colocou aqui seus primeiros passos na vida religiosa e finalmente numa maneira pessoal deu estatura à sua vocação religiosa nesta comunidade.

Para mim um dos momentos mais bonitos e mais importantes da vida religiosa é: estar presente no ofício coral. Muitos confrades estiveram e rezaram aqui antes de mim. Eu mesmo sou apenas uma argola numa extensa corrente de muitos confrades que aqui, geração após geração procuraram sempre de novo a Deus. Oxalá essa fila continue no futuro! Este encaixamento de tantas gerações de premonstratenses pode já ser considerado um milagre, certamente quando a gente olha com mais atenção a história da abadia. Averbode passou por tempos perturbados. Muitas casas da nossa Ordem não sobreviveram a essas tempestades. A abadia de Windberg na Alemanha, minha própria abadia, fundada em 1141, foi, em 1923, 120 anos depois de sua suspensão novamente povoada pela abadia de Berne-Heeswijk, da Holanda. Assim nós estamos admirados neste jubileu extraordinário. Desconfiamos que exista Alguém que mantém em vida esta casa, esta comunidade, e justamente neste lugar a protege. "Quando o Senhor não constrói a casa, é inútil o trabalho dos operários" (Sl. 127,1). Quando Deus não está atrás de nossos trabalhos e nosso suor, suamos e trabalhamos em vão. Nós mesmos não podemos fabricar vocações. Cada vez devemos suplicá-las a Deus. Com isso não julgo outras casas e certamente não quero condenar ninguém. Pelo contrário, hoje celebramos cheios de gratidão e reconhecimento que, aqui neste lugar, onde se reúnem as três províncias, já 875 anos existe a vida canonical.

Somos agradecidos por tudo o que confrades antes de nós realizaram: essa corrente interminável de orações e cânticos, a interminável adoração durante centenas de anos; as chamas flamejantes na parte superior do coro, nos lembram disso. Somos agradecidos pelas incontáveis Eucaristias diárias, que nesta Igreja abacial e nas igrejas da redondeza foram celebradas festivamente. Agradecemos a Deus por tudo que desse local floresceu através de engajamento pastoral e intensa cura de almas e assim irradiou por esta região. Leo Tolstoi disse certa vez: "Ama teu passado. É o caminho que Deus andou com você". Caros Averbodienses, amai vossa história de 875 anos. É o único caminho da presença e da providência de Deus.

Este jubileu coincide com a memória dos 875 anos da morte de nosso Fundador, São Norberto. Ele faleceu aos 06 de junho de 1134 como arcebispo de Magdeburgo. A abadia de Averbode foi fundada naquele ano pela abadia de São Miguel de Antuérpia. Neste lugar já existia, como também foi o caso na ereção de Prémontré, uma capela dedicada a João Batista. Após a morte de Norberto surgiram no norte novos centros que continuavam com o ideal canonical e lhe davam um futuro brilhante. Assim brilha, partindo de Norberto, um novo facho de luz sobre essa fundação. O abade Jos Wouters explanou na sua colaboração no novo livro de Norberto como as idéias do carismático Norberto puderam desenvolver-se dentro dos muros das tradicionais estruturas abaciais. Igualmente Norberto trouxe nesta forma tradicional da vida religiosa algo novo e assim lhe deu uma nova orientação: uma nova abertura total para a vida apostólica. Acentuava ele fortemente a vida comunitária, igualmente inspirado pelas palavras tanto agostinianas como bíblicas "um de coração e de alma caminhando para Deus". Esse engajamento para a vida comunitária devia também ser externado na pregação, na cura pastoral das almas e na assistência religiosa dada aos doentes, peregrinos e estrangeiros. Norberto queria construir igrejas e assim renovar e radicalizar a Igreja. As pequenas igrejas que estavam diante de seus olhos eram Igreja; no pleno sentido da palavra. Elas correspondiam às atitudes fundamentais da igreja em geral: martyria, liturgia, diaconia – anúncio, liturgia e serviço = ou como Koch descreve: "receber - louvar – distribuir". No anúncio nos dirigimos à verdade de Deus, na liturgia celebramos a beleza de Deus e no serviço focalizamos a bondade de Deus; em primeiro lugar aos confrades e em seguida às criaturas humanas, a quem fomos enviados. Norberto criava com suas abadias reformadas como que verdadeiros modelos de ser-igreja. Mais tarde experimentou isso no plano diocesano (Magdeburgo) e finalmente no plano maior da própria igreja em geral. Sua grande preocupação era sempre: criar uma igreja viva renovada e simultaneamente inspirada pela igreja primitiva. Ele partiu do ideal dos primeiros cristãos. Esses viviam "um em coração e espírito", estavam plenamente orientados para a comunidade e privavam-se radicalmente dos bens particulares em benefício dos bens comuns.

Norberto mesmo tinha uma certa inquietude criativa, que o levou a querer dar novos impulsos às circunstâncias e aos homens. Essa inquietude é em Norberto o espírito apostólico, que ele, para dizer assim, implantava como inspirador em suas comunidades. Isso podemos verificar na história de 875 anos de existência desta abadia. Somente aquele que muda, conserva o original. Somente aquele que se renova – em Norberto isso é chamado de conversão e reviravolta – numa fidelidade criativa interrupta, no futuro continua a existir.

Como se apresenta neste tempo a vida premonstratense? Em primeiro lugar devemos começar em nós mesmos. Também Norberto se converteu e implantou sua vida em Deus. Devemos sempre novamente avaliar as qualidades de nossa vida comunitária, principalmente neste tempo, em que a comunidade torna-se menor. As épocas de grande expansão terminaram. Isso, no entanto, oferece a possibilidade de concentrar–nos mais na incentivação da nossa vida comunitária. Hoje não se exige tanto ação em múltiplas atividades ou na vida econômica, mas somos convocados a dirigir nossa atenção para Cristo: inspirados pela vida de Cristo construir a comunidade, cada vez crescer mais na direção de Cristo, imitá-lo e igualar-se a Ele. Partindo de Cristo queremos ir até as criaturas humanas e executar aquelas tarefas, que no decorrer dos séculos nos foram confiadas. Norberto desejava comunidades inspiradas por Santo Agostinho. Em todo lugar animava as comunidades, onde encontrava espontaneidade e motivação. Norberto fundou "igrejas" – abadias -, onde ele encontrou seres humanos, que estavam dispostos a viver o modelo e o ideal dos tempos apostólicos. Ele não parou naquilo que tinha alcançado, mas, quando foi necessário, continuou a andar para frente em busca de novos rumos. Essa santa inquietude não levou Norberto a uma revolução permanente, mas a uma atenção mais aguda, um interesse especial e uma disposição de estar aberto para os problemas do tempo e para o bem-estar dos confrades. A preocupação fraterna – fraternitas – no sentido que "um ajuda a carregar o peso do outro", pertence à tarefa fundamental de nosso ideal de vida premonstratense.

Norberto tem uma atitude, um pouco dualística, que se manifesta principalmente na iconografia desde a Contrarreforma. De um lado ele olha devotamente e concentrado em si mesmo para o ostensório com a presença real do Senhor e do outro lado ele mostra uma atitude desafiadora e animadora. Eu me pergunto se ele não nos quer chocar um pouco e desafiar, agora que comemoramos os 875 anos de sua morte e igualmente o ano da fundação desta abadia de Averbode, tão rica em tradições e tão afamada? Robert Poulet, falecido em 1989, falou uma vez: "Um grande amor se reconhece não na sua força, mas na sua durabilidade". Em Averbode esse amor já dura 875 anos: o que é realmente um tempo muito respeitável. Por isso ousamos chamar isso: "um amor grandioso"

De todo o coração dou a toda a abadia meus parabéns. Para o futuro desejo-lhe um amor permanente e sempre crescente para Aquele que chama a todos nós.

Dom Thomas Handgraetinger, Abade Geral da Ordem Premonstratense.

Tradução da Revista: "Averbode" Ano 37 – Outubro 2009

Pirapora, 13 de novembro de 2009.

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